(Este texto sofreu alterações.)

A Band colocou no ar no último dia 25 a minissérie Haru e Natsu - As Cartas Que Não Foram Entregues, a primeira superprodução da TV japonesa sobre a questão da migração nipônica para o Brasil. A série conta a saga da família Takakura, que deixa Hokkaido (norte do Japão) para fazer dekassegui no Brasil, ou seja, para migrar de forma temporária, em busca de trabalho. Os Takakura se inscrevem no programa e são levados para Kobe (no centro-sul), para a triagem dos imigrantes e uma das filhas, Natsu, é diagnosticada com uma doença e impedida de viajar. Sem um de seus rebentos, a família parte com destino ao incerto, mas com a promessa de retornar em breve. Cumprindo uma promessa feita antes da partida, as duas irmãs seguem escrevendo cartas uma para a outra. Porém, por uma série de percalços, as missivas não chegam ao seu destino. Os anos se passam e, como ocorreu com boa parte dos japoneses que migraram para o Brasil, os Takakura acabam se alojando definitivamente no Brasil. 70 anos após a partida, Haru volta ao Japão com o objetivo de encontrar a irmã. Com a ajuda do neto Yamato, este um brasileiro vivendo no Japão, ela descobre que Natsu se tornou uma empresária de sucesso. O reencontro das duas é traumático. Natsu é uma mulher amargurada. Alega ter sido abandonada. Porém, muitos anos depois de terem sido enviadas, as cartas chegam às mãos de suas destinatárias e ajudam o espectador a desembrulhar o passado das duas irmãs.
O passado esquecido
A minissérie Haru e Natsu foi produzida em 2005 para a comemoração dos 80 anos da primeira transmissão da NHK - Nippon Hooso Kyookai, a rede de comunicação estatal japonesa - para o Brasil. Mas, também, pode-se dizer que serviu a um outro propósito: justificar a presença de imigrantes brasileiros no país. Muitos japoneses sabem pouco sobre o passado recente de seu país, sobretudo os mais jovens. Um dos grandes problemas da educação na Terra do Sol Nascente é o ensino de História. São poucas as linhas nos livros didáticos sobre temas polêmicos. A diáspora de japoneses durante as eras Meiji, Taisho e Showa é um assunto obscuro nos livros didáticos japoneses. Portanto, a série cumpre o objetivo de mostrar ao grande público esse pedaço desprezado da História.
Estranhos na terra de seus ancestrais
Os imigrantes dos períodos citados são muito mal-vistos na sociedade japonesa. O cientista social Takeyuki Tsuda relata em seu livro Strangers In The Ethnic Homeland como muitos japoneses ainda vêem seus compatriotas que foram para o Brasil, EUA, Peru, Havaí e outros lugares. Para quem ficou, esses imigrantes são gente do “mato” (inaka no hito), que “abandonou o país quando ele mais precisava”. Voltando ao Japão dos dias de hoje, os chamados nikkei burajirujin (brasileiros de descendência japonesa) estão na base da pirâmide social. Do mesmo modo que seus antepassados que atravessaram o oceano rumo ao Japão, são conhecidos como dekassegui e desde 1990, quando a Lei de Imigração foi flexibilizada para recebê-los e aliviar a pressão por mão-de-obra desqualificada, vêm aumentando em população. Sua presença é notada de diversas formas. Mas, ultimamente, a mais visível é a relacionada com os problemas sociais.
Brasileiros na mídia japonesa
Crimes envolvendo brasileiros no Japão vêm sendo amplamente noticiados pela mídia japonesa, muitas vezes de forma sensacionalista. Esses eventos foram ganhando mais destaque quando vários dos acusados fugiram para o Brasil, anulando as possibilidades de eles serem julgados por uma corte japonesa e provocando a ira de vários grupos locais. Vale lembrar que o Brasil, como muitos países do mundo, não pratica a extradição de nacionais, mesmo que sejam criminosos.
Um dos eventos que mais teve repercussão foi a morte de uma menina japonesa na província de Shizuoka. Uma motorista brasileira foi acusada de avançar o sinal vermelho, provocando a batida que arremessou a menina para fora do carro dos pais e a matou. Poucos dias depois, a acusada e toda sua família fugiu para o Brasil. Grupos nacionalistas iniciaram movimentos pressionando o governo japonês a tomar atitudes contra aquilo que chamam de “escalada dos crimes cometidos por estrangeiros”. Aqui cabe um parênteses: a criminalidade no Japão vêm aumentando nos últimos anos. Casos envolvendo nacionais estão incluídos no pacote. As autoridades, porém, voltam seus olhos para os delitos cometidos por estrangeiros. Alegam que há desproporcionalidade na participação de estrangeiros em atividades criminosas. Porém, esquecem-se da forma desproporcional com que estes são achatados no topo da pirâmide social. Além disso, grupos contrários à entrada de migrantes aproveitam-se dos eventos para mobilizar a opinião pública e gerar pressão social. Casos envolvendo brasileiros acabam gerando problemas para a comunidade brasileira, principalmente em cidades onde há alta concentração destes imigrantes. Por isso, movimentos sociais de brasileiros uniram-se aos japoneses para mostrar que a grande maioria dos imigrantes não está de acordo com a criminalidade. Ambos iniciaram um movimento para obrigar os governos dos países a criar um acordo de cooperação jurídica que permitisse a aplicação da lei aos que cometessem crimes e fugissem do Japão (ou vice-versa).
Com tanta promoção negativa em cima dos brasileiros imigrantes, a produção de uma série como Haru e Natsu tem a função de mostrar os nikkei à sociedade japonesa de uma forma positiva. Além disso, a repercussão entre os nipo-brasileiros também seria um meio de mostrar que o governo japonês está sensível aos problemas que ocorreram no Brasil, no passado, e aos que ocorrem atualmente com os dekassegui no Japão.
Personagens cheios de representações
Na série, Natsu (cujo nome significa ¨verão¨) representa o Japão atual. Ela se sente abandonada e rejeita o contato com a irmã. No primeiro encontro, trata Haru (cujo nome significa ¨primavera¨) com desprezo. ¨Vocês vieram aqui como dekassegui?¨, pergunta ela à irmã e ao sobrinho-neto Yamato (que é o antigo nome do Japão). Neste caso, ir para o Japão como dekassegui quer dizer “falhou como trabalhador no Brasil”. Ao redescobrir as cartas enviadas pela irmã (ou seja, a História), Natsu vê não apenas o que lhe foi escondido durante anos mas, também, que sua irmã sofreu dificuldades na terra para onde emigrou e lhe enviara, com frequência, uma parte do pouco dinheiro que recebia. Muitos historiadores revelam que os migrantes japoneses no Brasil não apenas faziam remessas de dinheiro para o Japão como vendiam o excedente da produção agrícola a preços baixos para o país de onde vieram. As cartas seriam, portanto, o meio que desfaz os mal-entendidos entre os que se foram e os que ficaram.
1 litro de lágrimas
As escolha estética, como vale para qualquer drama televisivo japonês, é a do dramalhão, com direito a muitas lágrimas, em especial no primeiro capítulo. “As novelas japonesas têm que fazer o público chorar, senão são consideradas ruins”, explicou pesquisadora Mii Saki Tanaka ao jornal fluminense O Globo.
Talvez, isso afaste um pouco parte do público brasileiro, não muito afeito ao estilo. As atrizes que vivem Haru e Natsu na infância são lindas e fazem um trabalho bastante digno.
Os personagens porém são arquétipos bastante conhecidos do público. Não faltam a ¨madrasta¨ má (no caso, a tia que fica com Natsu no Japão), o desconhecido que ajuda a mocinha… Como estamos falando, também, de Brasil, destaque para o capitão-do-mato, personagem que já está no imaginário brasileiro por conta das novelas de escravidão. Também há mortes, conflitos de gerações, questões de identidade, tudo bem ao gosto dos amantes do gênero épico. A recriação da cena do embarque dos emigrantes para o Japão é muito bem produzida e a viagem tem seus quês de Titanic, o filme multi-premiado de James Cameron. Afinal, não pode faltar romance, também. A imprensa brasileira divulgou que apenas a narração foi dublada, ou seja, os idiomas originais - japonês e português - foram mantidos. Porém, não vale rir do sotaque do Yamato. O ator é japonês e foi uma infeliz escalação.
No mais Haru e Natsu, é uma interessante viagem no universo da migração japonesa para o Brasil do ponto-de-vista dos que ficaram. Quem quiser conhecer o outro lado da moeda, pode ter uma boa surpresa em Gaijin - Os Caminhos Da Liberdade, de Tizuka Yamazaki. Mas, por gentileza, privilegiem a raríssima edição original. O filme exibido pela Globo há alguns anos não é fiel ao que foi lançado nos cinemas em 1980. Da mesma diretora, Gaijin - Ama-me Como Sou é uma espécie de continuação da saga do filme anterior, incluindo o movimento dekassegui. Os dois filmes têm algo bastante interessante: o papel da mulher no processo de imigração e assimilação à sociedade receptora.



fazem uma ladainha e depois se explodem levando para-sabe-se-onde a si próprio e tudo o que estava a seu redor. Porém, a notícia de que o ditador cubano Fidel Castro estava prestes a morrer tirou Cuba do ocaso. E, com o país, veio a tona o documentário Comandante do diretor norte-americano Oliver Stone. Filmado em 2002, “lançado” em 2003, Comandante foi execrado em seu próprio país — os EUA, vale clarificar, já que a obra é uma co-produção com a Espanha —, provando que Cuba ainda é um calo no dedo mindinho do governo norte-americano.
Todavia, a grande surpresa cubana em Shibuya foi o filme Memórias Del Subdesarollo (Memórias Do Subdesenvolvimento) dirigido por Tomas Gutierrez Alea, um dos maiores cineastas do país. A obra de 1968. A história se passa poucos anos após a Revolução e mostra um intelectual de classe média alta em conflito. Seus dias são vazios. Ele não trabalha, vive — ainda — da renda proporcionada por apartamentos dos quais é “ex-proprietário”. Despreza a classe popular, a quem culpa pela condição subdesenvolvida do país. A câmera na mão, em muitos momentos nervosa, sugestiona um diálogo com o Cinema Novo brasileiro, referência para os artistas de esquerda da época. Aliás, o filme está cheio de pontos de contato com obras como O Desafio de Paulo César Saraceni, obra-prima brasileira de 1965.









