Com tanta reportagem sobre a crise no Brasil, me surpreende o silencio da mídia brasileira acerca da situação dos emigrantes. Sabe-se que pelo menos 3,5 milhões de brasileiros vivem fora de seu país de origem. A maioria deles está vivendo nos Estados Unidos, no Paraguai e no Japão, mas há brazucas em todas as partes do mundo. Os efeitos da crise internacional nas vidas dos emigrantes brasileiros não foi debatida. Mas, no Japão, a situação está complicada.Vivem na Terra do Sol Nascente cerca de 320 mil brasileiros. Bem, pelo menos esse é o dado do governo japonês para 2007. Para esses emigrantes, a crise chegou mais cedo. Desde o inicio de 2008 fala-se de demissões em massa de brasileiro. Naquele longínquo mês de janeiro, a causa das possíveis demissões era a “invasão vermelha”, ou seja, a entrada cada vez mais massiva de imigrantes chineses e do sudeste asiático nas linhas das grandes industrias japonesas.
Segundo a mídia local e alguns pesquisadores, o rearranjo no mercado de trabalho iria se dar de forma gradual, sem que os brasileiros se dessem muita conta. Porem, o que estava acontecendo já era visível para os trabalhadores tupiniquins. Os relatos de moradores de cidades como Hamamatsu (província de Shizuoka, 20 mil brasileiros entre os moradores) davam conta de um numero cada vez maior de homens desempregados, sendo substituídos por trabalhadores indonésios, filipinos e chineses e/ou por mulheres brasileiras e peruanas. Esses trabalhadores custam menos aos empregadores japoneses.
(Vale lembrar que o Japão tem uma rígida lei de imigração e a entrada de trabalhadores não-qualificados não é permitida. Chineses, indonésios e filipinos para suprir as linhas de montagem das fabricas entram através de um programa especial de estágio que visa trazer imigrantes baratos e temporários para o Japão. Só para citar, programa semelhante já fora implantado, por exemplo, na Alemanha dos anos 1970 com conseqüências funestas para os migrantes.)
Portanto, o problema do desemprego entre os brasileiros parece ter sofrido um agravo com o estouro mundial da crise. Não ha dados do índice de desemprego entre os brasileiros no Japão, tampouco de como a crise afetou a vida destes migrantes. Porém, alguns indícios podem nos dar uma idéia do tamanho do impacto. Um deles é o aumento da procura de emprego nos escritórios de empreiteiras locais. Na cidade de Hamamatsu, quase todas as empreiteiras não estão fazendo cadastro de trabalhadores. Não há vagas a serem preenchidas. Outro dado é a queda de anunciantes nas revistas e jornais da imprensa brasileira local. Os veículos encolhem de tamanho toda vez que os empresários passam por dificuldades. Estas revistas e jornais são gratuitos em sua maioria e sobrevivem de publicidade.
As notícias veiculadas também não são as melhores. Fala-se de uma revoada de brasileiros de volta para casa e do aumento espetacular do numero de brasileiros que procuram emprego nos Hello Work, as agencias de trabalho japonesas, mantidas pelo poder público. Em Hamamatsu, criou-se uma seção especial para atender os estrangeiros. Diz-se que há filas de até 3 horas. Como a maioria dos poucos empregos em oferta nessas agencias exige algum conhecimento de língua japonesa, é provável que grande parte dos candidatos caiam por falta de qualificação. O governo da cidade esta promovendo cursos em atividades industriais como uma tentativa de recolocar estrangeiros no mercado de trabalho.
Como a grande maioria dos brasileiros não esta inscrito em serviços como o Shakai Hoken (Seguro Social), é provável que muita gente não consiga se beneficiar de direitos como o seguro-desemprego, o que pode agravar a condição destes migrantes. Espera-se, também, que muita gente retorne para o Brasil nos próximos meses. Por isso, estima-se que o impacto da crise mundial sob os emigrantes pode afetar o país. Há famílias (e até cidades inteiras) que dependem fortemente das remessas enviadas pelos brasileiros que vivem no exterior. O impacto do fenômeno na economia brasileira não foi discutido por nenhum dos grandes veículos da grande imprensa do país. Além disso, se houver o retorno dos emigrantes, algumas cidades poderão sofrer impactos sociais significativos. Por isso, é bom o pais começar a prestar atenção na situação dos brasileiros que vivem no exterior porque estes, afinal, ainda são cidadãos brasileiros.




















