Você gambatteia no zangyoo e nem tem tirado yasumi. Anda sem tempo para encontrar com a namorada, está sempre dizendo gomen. Ela também anda isogashii, shoganai. Essa semana foi no hospital, correndo, na hora do kyukei, mas não tinha tsuyaku. Saiu de teiji, mas já era bem tarde e teve que comer bentoo de konbini com juusu de hyaku en. Mas, no final de semana já comprou o tikketo para ir numa disco com os tomodachi.
Se você entendeu pelo menos os fundamentos dessa estorinha, parabéns! Você é um falante de dekasseguês, uma controversa variedade linguística da comunidade nikkei baseada na Terra do Sol Nascente que vem chamando atenção de pesquisadores e educadores. Mas, afinal, falar dekasseguês é um problema para os brasileiros que vivem no Japão? Ele interfere no aprendizado da língua portuguesa? Existe regra de etiqueta para falar em dekasseguês?
Variação da língua?
Segundo Alysson Pimenta, professor de português do Colégio Pitágoras de Hamamatsu, o dekasseguês é uma variação da língua e o uso de certas palavras japonesas no vocabulário em português pode enriquecer muito a maneira de um falante se expressar. É o caso de uma série de palavras usadas pela comunidade nikkei desde o Brasil. Nissei, sansei, dekassegui, gaijin e algumas outras palavras de origem japonesa representam, desde que os nipônicos se estabeleceram no país, uma forma de expressar idéias que não teriam correspondentes simples na língua portuguesa. Nesse sentido, falar “gaijin” teria, para os nipo-brasileiros, um significado muito mais amplo do que o oferecido pelo correpondente em português, “estrangeiro”. Seriam “gaijn”, por exemplo, todos os demais brasileiros que não tivessem origem japonesa.

Professores do Colégio Pitágoras de Hamamatsu
O chefe de recursos humanos Leonardo Sant’Anna que atua numa empresa de Hamamatsu segue o mesmo pensamento do professor. Segundo ele, o dekasseguês facilita bastante a comunicação entre os funcionários da fábrica. Como muitos brasileiros vêem para o Japão sem experiência na indústria, as técnicas e procedimentos, bem como nomes das máquinas e até mesmo a mera divisão dos turnos de trabalho, ganham significado apenas quando são falados em japonês. Por isso, os migrantes brasileiros no Japão falam “kyukei” ao invés de “intervalo”, “kensa” ao invés de “checagem”, dentre outros vocábulos japoneses que acabam sendo inseridos no cotidiano. Sant’Anna afirma que, numa entrevista de trabalho, usar o dekasseguês não influi quando ele está avaliando um candidato. Para ele é até um ponto positivo. “Isso mostra que aquele brasileiro incorporou aspectos da cultura local”, diz o profissional para quem o uso de gírias da língua portuguesa é algo que, na sua opinião, prejudica o postulante a uma vaga.
Perdidos na tradução
Porém, há situações em que o uso do dekasseguês pode afetar a comunicação. É o caso do que ocorreu com a mãe da estudante do Pitágoras, Elen Nishikawa. Segundo a jovem, sua mãe ligou para um banco no Brasil para fazer a solicitação de um serviço. Durante a chamada, ela usou a palavra “onegai” para expressar que já havia feito o mesmo pedido no Japão. Como o funcionário no Brasil não entendeu o significado da palavra, a mãe de Elen se desculpou. Em bom… dekasseguês. Ela começou a usar outras palavras que o funcionário do banco não entendia, o que formou uma grande confusão.
O professor Alysson Pimenta, que não é descendente de japoneses, passa por situações semelhantes quando telefona para sua mãe no Brasil. “Eu conto para ela que o bentoo do dia não estava bom e ela fica me perguntando o que é bentoo”, conta ele que passou por perrengue clássico para quem chega no Japão. “A minha coordenadora me perguntou se eu já tinha um keitai e eu fiquei olhando para ela e pensando ‘o que é isso?’, relembra ele, bem-humorado.
Recusa
Recém-chegado à Terra do Sol Nascente, o também estudante do Colégio Pitágoras Marcos Vinícius Oliveira ainda está se adaptando ao dekasseguês. “No Brasil, eu não tinha nenhum contato com a cultura japonesa”, conta ele que não entendia muitas das expressões usadas por suas colegas em sala. Depois de cinco meses, apesar de entender o significado de muitas palavras, ele ainda resiste em usar. “Keitai, por exemplo, eu falo celular”, diz Marcos. Presente na conversa, a professora de química e biologia Danielle Akemi Jogo conta que também passou por essa fase de resistência. “É legal quando você começa a se soltar e perde a vergonha de usar as palavras em japonês”, explica ela.

Alunos do Colégio Pitágoras de Hamamatsu
Mas, afinal, até onde o uso do dekasseguês pode ser bom ou ruim para o brasileiro no Japão? A dica vem do professor Alysson. “Existem várias formas de usar um idioma e eu tento ensinar aos meus alunos a ser poliglotas dentro da própria língua. Se for uma situação formal, eles têm que aprender a se portar formalmente. Eles têm que aprender a usar a língua se adaptando às várias ocasiões”, ensina o mestre. É uma lição que, sem dúvida, serve também para os adultos.
Em tempo: alguém se arrisca a “traduzir” a frase de abertura deste artigo?
Publicado originalmente em Alternativa.












1 response so far ↓
1 Jorge // Nov 7, 2008 at 6:42 pm
muito bom o artigo. parabens.
estou ha 5 anos no Japao e o dekassegues ja se tornou familiar para mim. contudo, tento evitar ao maximo misturar palavras japonesas com o portugues, mesmo que a pessoa com quem estou falando faca isso. Assim, quando falo com meus amigos no Brasil, nao corro o risco de falar dekassegues.
Embora concorde que o dekassegues ajude os brasileiros a decorarem muitas palavras do cotidiano em japones, nao acho muito bom conversar com criancas usando tal linguagem,pois creio que dificulta a aprendizagem de um portugues ou japones perfeito.
Leave a Comment