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Sobre esportes e ufanismo (no Brasil)

August 22nd, 2008 · 1 Comment

Olimpíada e Copa do Mundo: sempre a mesma miséria ideológica. “É a Pátria de chuteiras”, dizia-se um sobre a seleção brasileira. “É nossa, galera”, bradou recentemente uma esportista imbuída de um discurso que descaradamente copia o político mais populista. Atletas que vestem a camisa brasileira se tornam o próprio país. Não importa se, durante os 4 anos anteriores, a nação nada lhe tenha oferecido em incentivo. Perder é impensável. Soube que um programa que se pretende humorístico grava direto do aeroporto onde desembarcam os atletas para achincalhar os que voltaram sem medalhas. Eles se sentem no direito de cobrar uma performance melhor dos esportistas.

O descaramento patriótico não é exclusivo do esporte. Em Berlim, Tropa de Elite trouxe o Urso de Ouro “para o Brasil”. (Nesse caso, a idéia é até plausível visto que o filme foi produzido com recursos públicos. Esse é o “cinema independente brasileiro”.) Não importa se a grande maioria dos demais cineastas pena pra produzir obras do seu próprio bolso e sequer consegue colocá-las em circulação. É uma vitória do “cinema brasileiro”!

Onde quer que um brasileiro se destaque, tem sempre alguém (a nação inteira) tentando pegar um tasco do sucesso do outro. Na gíria popular, isso seria qualificado como “gozar com a pica dos outros”. Porém, a verdadde mostra que pouco ou nada do que algum portador do passaporte verde faça e que valha destaque deveria ser creditado à Pátria Amada, Brasil.

O exemplo do esporte é claro. Não faz muito tempo que os ginastas hoje tratados como perdedores olimpícos sequer tinham local para treinar. Antes de atingir a elite do esporte internacional, sob a batuta de técnicos estrangeiros, eles quase mendigavam patrocínio. Nos dias atuais, ocupam a primeira página dos jornais como heróis nacionais mas basta dar uma ré de menos de 10 anos para ver que eram tratados como alienígenas, gente estranha fazendo coisa esquisita. Eles devem ao Brasil pouco ou nada do respeito internacional que conquistaram.

O futebol, alcunhado esporte nacional, é uma indústria em decadência. Nenhum clube é capaz de segurar seus grandes talentos por muito tempo. Aliás, já há gente que sai das escolinhas de futebol direto para a Europa ou Ásia. Eles vão para onde serão tratados com dignidade, receberão pelo esforço realizado. Isso, claro, sem contar com a qualidade de vida e as oportunidades no país que os recebem. Poder sair à rua com segurança ou ter os filhos estudando em boas escolas não têm preço. Amor à camisa do país? Só se alguém for masoquista para amar a quem não lhe respeita nem dá oprtunidade. Outros exemplos não faltam: boa parte dos esportistas brasileiros treinam ou competem baseados no exterior. Alguém se perguntou o porquê disso?

No entanto, o país se sente no direito de cobrar alta performance de seus atletas. As reações negativas aos supostos fracassos de esportistas brasileiros nestas Olimpíadas apenas reforçam o cinismo do povo brasileiro acerca de si mesmo. Fôssemos amantes do esporte como fingimos ser, estaríamos em associações reinvidicando melhorias na Educação Física das escolas de ensino fundamental e médio. Qualquer ser um pouco mais informado sabe que é dali que saem os grandes atletas nos países que se preocupam menos com resultados olímpicos e mais com o bem-estar de sua população.

Fazer dos Jogos Olimpícos (ou de quaisquer outros torneios, disputas e premiações) um caso de orgulho patriótico ou uma questão nacional é mais que simples ufanismo. É prova de que um país tem pouco, muito pouco mesmo, para se orgulhar de si próprio e de seu povo. Ver uma população inteira vangloriar-se por conquistas de determinados indivíduos é a triste constatação de que o Brasil é uma nação de pessoas que têm muito pouco almejar para si próprias. A vitória do atleta olímpico é a vitória do povo apenas quando este mesmo povo não tem vitórias suas - pessoais e coletivas - para se orgulhar.

Nada contra os atletas ou outros brasileiros de destaque internacional, mas cada coisa em seu lugar. A medalha de ouro do nadador olimpíco que treina nos Estados Unidos é uma conquista dele. Que os brasileiros busquem suas conquistas pessoais e sociais. Tenho certeza que irão se divertir muito mais apreciando o esporte em si do que criando cabelos brancos de comoção a cada vez que um atleta brasileiro perde em alguma competição.

Tags: Bate-papo

1 response so far ↓

  • 1 Juliana Paula // Aug 27, 2008 at 10:00 am

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    Um abraco e sucesso!

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