Pode se dizer que a língua japonesa utiliza cinco tipos diferentes de registros escritos para as palavras: o kanji, o hiragana (lê-se “riragana”), o katakana, o alfabeto romano e os algarimos indo-arábicos. Parece confuso (e é), mas para um leitor médio da língua, a combinação desses elementos ganham algum sentido, mesmo que ele não entenda exatamente o que está escrito na frase. Em geral, kanjis representam os radicais das palavras e são usados basicamente em nomes, numerais, adjetivos e radicais dos verbos e adjetivos verbais (saiba mais sobre isso adiante). Hiragana e katakana são silabários com usos específicos.
Negócio da China
Os kanjis são uma escrita ideográfica originária da China. Diferente do nosso alfabeto onde os símbolos representam sons, cada kanji representa uma idéia.
Muitas vezes um estudante iniciante consegue entender o significado de uma palavra sem saber lê-la. Por exemplo, no caso dos kanjis da palavra ‘densha’: o primeiro representa ‘eletricidade’ e o seguinte ‘carro’: o significado literal seria, portanto, carro elétrico, o qual evoca a idéia de ‘trem’. Kanjis são utilizados para a escrita no Japão, na China, em Taiwan, Hong Kong e Macau. No mundo chinês são chamados de “hanzi“. Até recentemente, o coreano também era escrito num mix de kanji (que eles chamam de “hanja“) e o hangui, o alfabeto local.
Sem escrita para o japonês
O japonês não tinha escrita até o século V desta era. Foi quando coreanos que viviam no Japão começaram a usar caracteres chineses para escrever a língua. Os caracteres eram utilizados levando em consideração os significados. Dois séculos depois, os japoneses passaram usar um limitado grupo de caracteres chineses para escrever sua língua. Desta vez, porém, os kanjis eram usados de forma sonora, ou seja, cara caracter representava uma sílaba da palavra em japonês. Esse sistema é chamado de man-yoogana. Com o tempo, os man-yoogana foram sofrendo alterações. A alteração das formas gerou o que hoje é conhecido como hiragana, que mantêm sua função de representação silábica da escrita. Quando começaram a ser adotados, os hiragana eram chamados de “escrita de mulher”. Isso porque eles são a forma cursiva dos man-yoogana que eram bastante populares entre o sexo feminino que pôde, através desta, entrar no mundo da escrita antes reservado aos homens.
O katakana, que também é um silabário, surgiu na mesma época como uma espécie de simplificação dos caracteres do man-yoogana. Enquanto o hiragana garantia o acesso das mulheres ao mundo das letras, o katakana era mais usado por homens e na escrita oficial. Aliás, até pouco tempo, o katakana tinha a função de okurigana, ou seja, de representação das conjugações dos verbos e dos adjetivos verbais. Além disso, era usado nas partículas e outras palavras que não têm escrita em kanji. Essa função cabe, no japonês atual, ao hiragana.
Hoje, o katakana é usado basicamente para expressões estrangeiras e onomatopéias. Além disso, pode dar outras nuances a palavras escritas normalmente em kanji ou hiragana. Por exemplo, quando alguém escreve Tóquio em kanji (acima, na figura) está obviamente falando da capital do Japão. Porém, se ele escreve (no meio) em katakana, pode estar falando da internacionalização da cidade, da cidade global, ou seja, ele está colocando um conceito a mais na idéia original da palavra.
“Seja um pouco mais prático, Roberto-san!”
Complicou? Vamos tentar ser um pouco mais práticos. Veja a figura abaixo:

- “Roberto“, sou eu : ) . Como se trata de um nome estrangeiro é escrito em katakana.
- “san” é uma partícula de tratamento. Não tem tradução para o português, mas quem é da época do Karatê Kid entende, né? Quem não é… Bem, digamos que seria uma forma respeitosa de tratar uma (qualquer uma) pessoa. É uma palavra bem própria da língua japonesa e, portanto, não tem kanji para representá-la, já que os caracteres vieram da China. Por isso, é escrita em hiragana.
- “wa” é a partícula que indica o sujeito da frase. Também é escrita em hiragana, pelo mesmo motivo que “san”.
- “atarashii” quer dizer “novo”. Note que a palavra é escrita com dois tipos de caracteres: o kanji, para a parte que representa o radical do adjetivo; e o hiragana, na parte que atua como okurigana, ou seja, a parte variável. No japonês, existem adjetivos que se comportam como verbos e, por isso, receberam o nome em português de adjetivos verbais. Eles têm flexão de tempo (atarashikatta, ou seja, era novo) e de afirmação/negação (atarashikunai, ou seja, não é novo).
- “keitai denwa” significa “telefone portátil”, o nosso famoso “celular”. É uma palavra composta por dois substantivos originados na língua japonesa. São, portanto, escritos em kanji. Mais recentemente, a palavra “keitai“, quando se refere ao telefone celular, vem sendo bastante usada em katakana. Suspeito que haja duas razões para isso. A primeira é que o uso de “keitai” como abreviação para “keitai denwa” e em referência ao aparelho móvel cria um novo sentido para a palavra. Originalmente, “keitai” significa “algo que pode ser portado”. Logo, “keitai” em kanji se refere ao sentido original da palavra. Já “keitai” em katakana, ao telefone celular. Em segundo lugar, a publicidade usa muitas palavras no silabário. A idéia, agora, é atrair o público jovem. Palavras escritas em katakana são associadas a idéias inovadoras e globais. Lembre-se que as palavras estrangeiras são escritas usando esse silabário.
- “wo” é a partícula que indica objeto. Logo, vale a mesma regra de “wa” e escreve-se em hiragana.
- “kaimashita” quer dizer “comprou”, ou seja, o verbo comprar no passado afirmativo da língua japonesa. Como ocorre em “atarashii“, aqui se usa kanji para o radical e hiragana para a parte variável.
Em números
O Ministério da Educação determinou em 1981 que são 1.945 os kanjis que devem ser usados na língua japonesa. Eles são chamados de jooyoo kanji e podem ser vistos nesta página. 1006 deles devem ser aprendidos até o sexto ano da escola. No primeiro ano, a criança aprende apenas 80 deles. Veja a lista com o número de kanjis por série:
- Primeira série: 80
- Segunda série 160
- Terceira série 200
- Quarta série 200
- Quinta série 185
- Sexta série 181
Os 930 caracteres restantes são aprendidos até a 9a. série do Ensino Fundamental.
Hiragana e katakana são ensinados na primeira série. Eles são compostos por uma base de caracteres e algumas possibilidades de modificação através de sinais que são conhecidos como dakuten (”) e handakuten (°). Veja o que acontece em algumas sílabas que admitem esses sinais:

As sílabas terminadas em “i” também podem receber pequenos “ya” ou “yu” e formar novas sílabas como você vê na figura abaixo:

Perdidos na adaptação
Todos os exemplos que você viu acima são de hiragana, mas o dakuten e o handakuten podem ser usados nos katakana também. Aliás, esse segundo silabário é ainda mais versátil. Isso porque é com ele que os japoneses se viram para representar as palavras de línguas estrangeiras e como o japonês não tem todos os sons que as outras línguas têm, os nipônicos precisam “rebolar”. As famílias do “fa” e do “va” não existem na língua japonesa. (Existe o “fu”, que pertence a família do “ha” e é pronunciado, na verdade, no limite entre “hu” e “fu”.) Veja como eles se viraram nessas famílias:

Para fazer o “fa”, eles usam o caractere “fu” seguido do “a” pequeno. Para fazer “va”, o “u” recebe um dakuten e a ele se segue a vogal em tamanho pequeno. Que coisa, né? Aliás, uma das coisas no Japão que mais chama a atenção dos estrangeiros é a “katakanização” de idiomas estrangeiros. em outras palavras, é a adaptação fonética dos vocábulos de outras línguas para o japonês. Nessa brincadeira, eu deixei de ser Roberto e passei a ser “Roberuto”. “Cofee” (café, em inglês) virou koohii (leia “coorrii”). Gender (gênero, em inglês) é falado gendaa (leia “djendaa”). Os exemplos são muitos…
Bem, se mesmo depois de tudo isso você se ainda está animado em aprender japonês, sugiro começar pelos hiragana e katakana. Uma lista deles você pode ver seguindo os links nas próprias palavras. Nesta página, você aprende a escrever os hiragana e katakana com gifs animadas. Dúvidas? Escreve na caixinha de comentários.
Nihongo no sekai he yookoso, ou seja, “bem-vindo ao mundo da língua japonesa”.
Leia mais sobre a escrita em japonês:
Por um japonês mais… japonês
O Kanji do Ano










11 responses so far ↓
1 Paulo // Mar 2, 2008 at 5:19 am
Uau! Que aula, Roberto. Dia desses estava conversando com uma amiga sobre esse assunto. Acho que ela vai adorar ler esse post. Vou lá dar a dica.
2 andre // Mar 17, 2008 at 10:32 pm
queromeunome em japones
3 claudete // Apr 2, 2008 at 5:00 am
Quero escrever a palavra “PARABENS” em japones, para um trabalho de escola
4 Bárbara // Apr 3, 2008 at 1:32 am
adoro a lingua Japonesa mesmo sem,ainda,saber ler e escrever o idioma!
é tudo muito diferente,
tudo tráz muita curiosidade.
adorei a aula..
Roberto está de parabéns.
beijão e,se puder,me respondam:todos os Japoneses entendem o alfabeto romano,mesmo sem saber o inglês?
hum…
espero resposta.
5 Bárbara // Apr 3, 2008 at 1:35 am
poxa…
lá no hiragana a escrita é só no inglês?
[:(]
ah,
assim num vale.
eu num sei inglês!
tudo bem.
mas já ajudaram muito.
valeu,viu?
xaxau.
6 robertom // Apr 3, 2008 at 12:01 pm
Oi, Barbara, tudo bem? Então, as escolas ensinam, também, o alfabeto romano.
7 ligia simone // Apr 8, 2008 at 2:45 am
sbjjjjjjjjjjjjjj p/todo
8 maiara // Apr 18, 2008 at 6:18 pm
oi meunome é maiara quero augo que meajude a fala japones e para a manhan e jaia esque sendedo meu nome é maiara e tenho 7 anos
9 vinicius bezerra sales pinheiro // Apr 24, 2008 at 12:12 am
eu quero meunome em japones
10 Heron // May 1, 2008 at 5:12 am
Boa noite Roberto,
Parabêns pelo seu site, está em uma excelente linguagem.
Só gostaria de ressaltar que no ítem “Seja um pouco mais prático, Roberto-san!”, a legenda de Hiragana e Katakana está trocada, as letras em vermelho são Hiragana e as em Azul(seu nome) é em katakana.Abraços.
11 robertom // May 1, 2008 at 5:35 am
Olá, Heron, obrigado pela visita e pela atenção especial ao blog. A figura incorreta já foi corrigida.
Grato,
Roberto
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