O Japão lançou essa semana mais um preocupante relatório acerca do avanço da aids no país. Ano passado, publiquei na revista Alternativa a seguinte matéria sobre os casos da doença na província com a 2a. maior população brasileira do país.
Num primeiro olhar, os números de casos de HIV/aids na província de Shizuoka não parecem ser preocupantes. Segundo o órgão de saúde provinciais, até o mês de setembro de 2007, foram registrados 18 casos de infecção pelo vírus HIV e 12 novos pacientes de aids. O total de 30 casos é um contraste com os dados, por exemplo, do estado do Espírito Santo que, com uma população equivalente à de Shizuoka, registrou 251 casos da doença no ano retrasado. O que esses dados numéricos não revelam, todavia, é o reduzido número de pessoas que fazem o exame de HIV no Japão. “A aids ocupa pouco espaço na mídia japonesa”, afirma o ativista Fernando Okada, membro da ONG Living Together que atua na conscientização dos estrangeiros da região de Hamamatsu. “Isso incluí”, critica ele, “a mídia brasileira local”. Para Okada, a aids entra em questão apenas uma vez ao ano, exatamente no dia 1o. de dezembro, quando ocorre o Dia Mundial de Luta Contra A Aids. “Luta”, aliás, é uma expressão que o ativista condena. “Estamos lutando contra quem?”, questiona ele. “Não podemos transformar a conscientização das pessoas em uma guerra porque, com isso, estamos estigmatizando mais o paciente de aids e o portador do vírus HIV”, aponta ele, seguidor das idéias da pensadora norte-americana Susan Sontag que discutiu os mitos da doença em seu livro A Aids E Suas Metáforas.
Informação em português é limitada
O destaque dado à mídia étnica (jornais, revistas e canais de TV voltados para imigrantes) pelo ativista não é por acaso. Como a maioria das (poucas) informações disponíveis estão em japonês, o papel da imprensa direcionada ao público brasileiro é fundamental. Dos 43 casos de infecção pelo HIV reportados ao governo de Shizuoka durante todo o ano de 2006, 7 foram de estrangeiros, o que corresponde a pouco mais de 16% do total. Considerando que estrangeiros são cerca de 2% da população da província, a proporção de pacientes e de soropositivos entre os não-japoneses é bastante alta.
Pesquisas revelam que, em média, para cada caso de Aids que chega às estatísticas, cerca de 5 não são reportados. Se essa mesma equação puder ser aplicada ao caso japonês, o número real de infectados pelo vírus HIV deve ser ainda maior. Essa invisibilidade ocorre porque a maioria das pessoas ainda tem receio de fazer o exame. No caso dos brasileiros no Japão, a situação de imigrante complica mais as coisas. “Os locais não são de fácil acesso e há o problema de horário”, explica Okada. Além disso, há a barreira da língua. Muitos temem fazer o exame e não entender o resultado, o que causaria mais ansiedade. “Falta tradutores qualificados”, pontua o ativista.
Serviços em português também são precários
A reportagem entrou em contato com os hokenjo (centros de saúde) das cidades de Fuji, Iwata, Fujieda, Shizuoka e Hamamatsu. Em todos os centros, exames de HIV não são realizados diariamente e somente em Hamamatsu e Shizuoka é possível ser atendido sem reservar horário. Há serviços de intérprete nos Centros de Saúde de Hamamatsu (18.188 brasileiros em 2005) e Fuji (1.743 brasileiros, 2005). Nesta última cidade, porém, o tradutor precisa ser solicitado no momento da marcação do exame. Há, ainda, um dia de atendimento noturno mensal nos hokenjo de Shizuoka (1.506 brasileiros, 2005) e Iwata (7,033, em 2005). Dos cinco postos contactados, o de Hamamatsu é o que apresenta o maior leque de serviços voltados para brasileiros. Segundo a tradutora Carla Toguchi, a prefeitura da cidade oferece, além da intérpretes para consultas e exames, serviço de assistente social para os diagnosticados como HIV positivo. Também são realizadas visitas domiciliares sempre que necessário.
Todo esse esforço é para incentivar que as pessoas procurem tratamento. “A Aids não tem cura, mas pode ser tratada”, explica Okada. Uma profissional com experiência de trabalho com pacientes de HIV/aids na província conta que teve clientes que estiveram próximos da morte mas que se recuperaram depois que entraram em tratamento. É gente que mesmo carregando o vírus vive uma vida normal, apesar dos cuidados especiais necessários a pacientes de doenças crônicas. Porém, no Japão os medicamentos não são fornecidos pelo Estado. “Um tratamento médico para pacientes de Aids que não têm hoken (seguro) pode chegar a 200 mil ienes (cerca de R$3.300) mensais”, conta a informante que prefere não ser identificada para não expôr seus clientes. Porém, segundo a profissional, quando um paciente está muito debilitado, os médicos dão entrada nos procedimentos para a aquisição de um documento de invalidez por problemas de saúde que barateia os custos.
Prevenção ainda é o melhor remédio
Apesar de aids não ser mais sinônimo de morte rápida, os profissionais alertam para a importância da prevenção do contágio. Nossa informante anônima alerta para o perigo do que pode ser chamado “síndrome da onipotência”. Ela tem ouvido dos mais jovens frases que a preocupam. “Eles pensam que Aids não acontece com eles”, conta ela. Fernando Okada faz coro com a profissional. “As pessoas precisam parar de achar que o assunto não tem nada a ver com elas”, afirma o ativista. De fato, no Japão ainda impera o pensamento de que há grupos de risco, ou seja, pessoas mais propensas a contrair o vírus. Os dados fornecidos pela província, porém, descartam essa idéia. Em Shizuoka, apesar de a maioria dos casos de HIV estar concentrado no grupo de homens que transam com parceiros do mesmo sexo (52%), as outras formas de contágio também apresentam números expressivos. Aliás, até para esse fenômeno há uma resposta. Assim como ocorreu há anos em outros países, os homossexuais são, no Japão de hoje, o grupo que recebe mais informações sobre a doença e, por consequência, o que procura mais os exames. Por isso, eles aparecem com destaque nas estatísticas. Nossa informante anônima conta que teve contato com casos dos mais variados, incluindo mulheres casadas, provavelmente infectadas por maridos ou em outras relações monogâmicas. Isso desmistifica a idéia de aids como doença de gays e usuários de drogas, um passo que já foi dado no Brasil mas ainda está longe de ser alcançado no Japão. Ela lembra que e é nesse tipo de pensamento que está o perigo do contágio.
Os preconceitos e a falta de informação tornam ainda mais importante o trabalho de organizações como o Living Together que, como a grande maioria das entidades formadas por voluntários, tem tido problemas na captação de recursos para seus projetos. Fernando Okada conta, também, que é difícil formar um corpo de voluntários com condições de prestar serviços especializados. Mesmo assim, a entidade ainda mantém um e-mail <livingtogether@gmail.com> e uma comunidade no orkut (escreva “living together” na busca), para os que precisarem de ajuda ou informações.
Publicado originalmente em Alternativa.










3 responses so far ↓
1 daniel miyagi // Feb 16, 2008 at 5:49 pm
Esses lados, as províncias de Shizuoka e Aichi tem o agravante de concentrar um grande número de brasileiros , sendo Hamamatsu a cidade de maior número de brasileiros, e as prefeituras locais não concederem kokumim hoken. Por força da fiscalização dos órgãos governamentais, de uns tempos pra cá gradativamente as empreiteiras estão contratando funcionários registrados no shakai -hoken, mas isso ainda é um número pequeno.
Outro problema sério é esse que vc citou sobre a língua: tem hospital que tem tradutor, mas isso não é regra, é exceção. E, numa cidade como Hamamatsu que tem inúmeros brasileiros, quando vão num hospital, mesmo que tenha tradutor, essa pessoa é apenas uma pessoa só;
Ano passado, um grupo gay japonês que tem sua sede em Tokyo fez uma pesquisa sobre AIDS e um dos resultados é que vem crescendo o número, entre os jovens homossexuais nihondins, mas cresce também entre homossexuais de origem latina, brasileiros entre eles.
2 robertom // Feb 16, 2008 at 5:56 pm
Oi, Daniel, acho que o problema de não haver tradutores é complexo porque envolve dois lados. Um deles é o fato dos brasileiros não se interessarem por aprender a língua, como relatam as pesquisas em que eu venho trabalhando. É importante que as pessoas procurem aprender japonês também. Imagina, numa cidade onde há 800.000 habitantes e 20.000 brasileiros se cada hospital vai ter um tradutor full time e gratuito. Sabemos que os cuidados médicos são parcialmente pagos pelo paciente. Mas, o tradutor é totalmente gratuito e exclusivo para os brasileiros. Acho importante pensarmos, também, na mídia e na sua função social, como destaca o ativista. Além disso, temos pesquisado muito sobre os brasileiros e o senso de organização social. Ainda há pouca mobilização dos brasileiros em torno desses temas. É preciso que a gente faça a nossa parte, também, como cidadãos.
Bjão
3 Paulo // Feb 17, 2008 at 3:06 pm
Eu concordo com a importância de se aprender japonês, e também com a falta de interesse de uma parcela. Acho que uma estrutura de apoio é importante, mas para resolver situações onde o japonês falado pelo paciente seja insuficiente. Se fosse esse o caso, talvez os tradutores existentes já seriam o bastante.
Na verdade o que mais me preocupa é a hipocrisia, é o famoso viu-mas-fez-que-não-viu. Porque diferenças culturais à parte, negar um problema não é a solução, nunca. E eu vejo muita negação por aqui, é família, é trabalho, é igreja, e até mesmo o próprio infectado.
Informação é tudo! Parabéns pelo post!
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