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Japão em dois tempos

February 7th, 2008 · 1 Comment

Filmes abordam o Japão em momentos cruciais de sua história recente

Filmes são representações das épocas em que foram produzidos. Também são ferramentas interessantes de análise de épocas que já se foram. Muitos dos grandes filmes de todos os tempos são obras históricas que criam em nossas cabeças imagens de como as coisas teriam sido há 100, 300 ou mesmo 1000 anos atrás. Porém, certa vez, ouvi do diretor argentino Javier Torre uma frase interessantíssima. “É mais difícil filmar os anos 80 do que a invasão portuguesa do século XV”, disse-me ele durante uma longa entrevista sobre seu filme Vereda Tropical, lançado em 2004. Realmente, épocas mais recentes ainda estão presentes na memória de muita gente. A linguagem, as roupas e as músicas que eram ouvidas ainda são parte das lembranças de muita gente o que, por outro lado, faz com que a pesquisa seja mais fácil. Recentemente, assisti dois filmes japoneses que tratam de duas épocas conseqüentes da história do país. Porém, ao contrário da idéia que a conversa com Torre me despertou, eu não tenho memórias de fatos históricos do Japão, mesmo que recentes. Por isso, de algum modo, os filmes foram uma aula de como certos grupos de hoje pensam momentos como a industrialização do país e o estouro da bolha econômica. Mas, antes que vocês pensem que eu andei assistindo algum documentário educativo da NHK (nada contra, pelo menos da minha parte), vamos aos filmes, por ordem cronólogica dos momentos históricos abordados.

Always - 3 Chome No Yuhi <ALWAYS 三丁目の夕日>(algo como “Para Sempre - Entardecer Na Quadra 3″) se passa em 1958, numa Tóquio ainda de ruas estreitas e pequenos comerciantes e casas humildes de no máximo dois andares. Porém, para essa gente que sobreviveu física e mentalmente aos desavarios da guerra, no horizonte se constrói um futuro cheio de prosperidade. Ao longo da Quadra 3, vê-se a construção da magnífica Torre de Tóquio, réplica da famosa Torre Eiffel e símbolo do desenvolvimento acelerado pelo qual o Japão estava passando. O tempo é o protagonista de uma história que começa com um trem aportando na antiga estação de Ueno e trazendo a sonhadora Mutsuko que partiu da distante Aomori para trabalhar na Suzuki Auto. Esqueça, porém, o nome famoso que você conhece hoje. À época, a firma nada mais era do que uma oficina mecânica capitaneada pelo incansável Norifumi, um homem sem instrução mas com a forte ambição de vencer através do seu negócio. Ele acolhe Mutsuko com sua família formada pela dedicada esposa e seu filho pequeno. Algumas casas depois, está o “literato” Chagawa Ryunosuke que se gaba de seu alto nível de educação, mas vive de escrever histórias para um gibi voltado para meninos e de enganar seus pequenos clientes da doceria com um jogo no qual ninguém nunca acha o tíquete premiado. Mais adiante, está se alojando a jovem Hiromi, de passado misterioso, mas determinada a mudar de vida com sua pequena izakaya. 12fa47a1.jpgAo longo da história, para todos os personagens surge uma esperança: o trabalho na cidade grande, o enriquecimento pessoal, o amor para quem não o tem. Essa é a mensagem de uma época em que o Japão saía do fundo do poço para se tornar uma das mais ricas nações do planeta. Além da história com apelo bastante popular, Always… tem uma excelente reconstituição de época. Seu diretor, Takashi Yamazaki é conhecido pelo trabalho em obras de ficção científica e de cinema fantástico e usou todo seu know how em criar mundos espetáculos para reproduzir da Tóquio da virada dos anos 50.

Com Bubble E Go! <バブルへGO!> (algo como “Avante Até a Bolha!”), viaje até 1990. A cidade é a mesma, Tóquio. Mas, quanta diferença. Grandes prédios e luz de neon mostram a pujança do bairro de Roppongi, o point dos descolados e onde estrangeiros e japoneses endinheirados vão se divertir. Através de uma máquina do tempo, a endividada Maya tem a função de encontrar os responsáveis pelos atos de corrupção que geraram a bolha econômica e salvar o país da tragédia que se seguiu ao seu estouro. Além disso, ela tem que encontrar a mãe, a quem julgava morta, e trazê-la de volta aos dias atuais em segurança. O clima de Bubble E Go! não é de esperança. Pelo menos para Maya, filha de pais separados e hostess eventual. A moça, representação de uma geração dos sonhos destruídos da nação, é, agora, a sua perspectiva de salvação. Para os que vivem na Tóquio de 1990, porém, o clima é outro e, como em Always - 3 Chome No Yuhi, tem uma representação arquitetônica: é a Ponte Rainbow (você pode vê-la no topo da página de entrada deste blog), a qual representa a conclusão das obras da expansão da ilha artificial de Odaiba, cartão postal da cidade. A cidade vive alheia ao estrago em grande proporção que está por vir. Lá pelas tantas você vai ver um tal de Ruy Ramos, um então aspirante a craque de futebol que… Bem, você já sabe. Arrastando asas para a comédia pastelão, Bubble E Go! tem um fim digno de uma chanchada e uma mensagem de que tudo pode ter solução. Ou poderia, visto que a realidade…

Em comum nos dois filmes, além do estrondoso sucesso de público que fizeram, está a abordagem sem muitos didatismos de duas épocas extraordinárias da história recente do Japão. Para os que se interessam no assunto, é uma opção bacana para conhecer mais. Ambos os filmes podem ser encontrados nas locadoras.

Publicado originalmente em Alternativa.

Tags: Filmes

1 response so far ↓

  • 1 daniel miyagi // Feb 7, 2008 at 11:06 am

    Como eu disse num dos comentários passados, assisti ao Always, filme que recebeu vários prêmios, inclusive os atores Hidetaka Yoshioka e a excelente Hiroko Yakushimaru, essa mereceu.
    O japonês quando quer sabe fazer um bom drama

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