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Faça a paz, não a guerra

February 1st, 2008 · 2 Comments

Nas ruas de Nova York, um artista de rua japonês dá uma lição de paz
Moradores de rua sempre são um atrativo para cineastas e afins. Existe uma curiosidade coletiva pelo processo que leva um indivíduo a perder a referência de lar. Adaptação, relação entre o público e o privado, pobreza e muitos outros temas emergem quando a discussão é a população de rua. Porém, poucos cineastas conseguem ir além da abordagem sociológica da questão e encontrar o ser humano por trás de tudo o que envolve essa situação de risco social. Uma obra que entra nesse seleto rol é o documentário The Cats Of Mirikitani (em português, “Os Gatos de Mirikitani”) da diretora Linda Hattendorf , que retrata o encontro da cineasta com o artista e morador de rua Jimmy Mirikitani. Hattendorf interessa-se pelo homem por causa de seus desenhos, em sua maioria, de gatos. A aproximação é mostrada no filme como uma história em etapas. Numa abordagem que lembra a relação de antropólogos com povos desconhecidos, a diretora vai oferecendo presentes como forma de conquistar a confiança do homem e, aos poucos, ele vai abrindo a guarda. Mirikitani era um dos muitos filhos de japoneses que nasceram na América. A família retornou para o Japão quando ele ainda era pequeno e se estabeleceu em Hiroshima. Com dupla nacionalidade, Mirikitani voltou aos Estados Unidos com 18 anos para fugir do serviço militar. “Eu não tenho medo de morrer”, conta ele, “mas eu não sou um homem de armas. Sou um artista”, completa. A fuga do campo de batalha, porém, não evitou que Mirikitani se livrasse das consequências da guerra.

Filmado em 2001, The Cats Of Mirikitani tem nos ataques terroristas um ponto crucial. Assim como a Segunda Guerra Mundial terminada em 1945 mudou a vida de seu protagonista, a tal “guerra do terror” é a ponta de uma segunda reviravolta, que força um encontro com o passado. É por causa dos atentados às Torres Gêmeas que a amizade entre o documentado e a diretora ganha estreitamento e na medida em que ela consegue entrar na intimidade dele, a história do homem emerge em sua própria obra e em documentos que revelam mais sobre sua origem.

Para os leitores que não falam japonês, The Cats Of Mirikitani tem uma vantagem: o filme é falado basicamente em inglês e boa parte dos diálogos é protagonizada pelo próprio Mirikitani, cujo domínio do idioma foi considerado pela diretora como pouco compreensível — principalmente para as platéias americanas — razão pela qual o filme é legendado na maior parte do tempo. Para quem está aprendendo inglês, por exemplo, pode ser um estímulo a mais para ver o documentário nas salas de cinema. No mais, o maior atrativo é a sensibilidade com a qual Hattendorf conseguiu retratar o homem por trás do problema social. Com isso, talvez sem saber, ela encontrou um universo muito mais rico do que costuma se esperar quando se aborda um morador de rua. Mais interessado no homem do que na questão social, The Cats Of Mirikitani torna-se, mesmo sem ter tido esse objetivo ao princípio, uma elegia à paz.

Veja mais obras de Jimmy Mirikitani no site do filme:
www.thecatsofmirikitani.com

Publicado originalmente em Alternativa.

Imagens: divulgação

Tags: Filmes

2 responses so far ↓

  • 1 Paulo // Feb 2, 2008 at 11:21 am

    Preciso descobrir uma forma de assistir esse filme!

    Rapaz, sobre o roteiro, tô dentro! E a honra é toda minha!!!

    Vamos marcar essa conversa!

    Abraços

  • 2 robertom // Feb 2, 2008 at 12:26 pm

    Oi, Paulo, esse filme deve chegar em breve às locadoras do Japão.

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