PRODUTOS NOTÁVEIS

notícias do Japão sob um ponto-de-vista cultural (e nada matemático)

PRODUTOS NOTÁVEIS header image 2

As Novas Caras do Japão (e dos Japoneses)

January 28th, 2008 · 1 Comment

As duas são gracinhas. Uma é ruivinha e a outra tem cabelos bem escuros. Esta, ainda, possui os olhos bem puxados. São, à primeira vista, bem diferentes uma da outra. Mas, para espanto de muitos, ambas são irmãs. E, para confundir os menos preparados, japonesas. O pai das lindas meninas é o pesquisador e ativista Arudou Debito que não esconde o orgulho de, apesar de seu tipo físico europeu e de ter nascido nos Estados Unidos, ser, também, cidadão japonês. Na outra ponta da mesa, um rapaz escuta atento a todas falas. Discreto, ele não chama atenção dos falantes. Seu silêncio leva o espectador desavisado a outra confusão. Apesar da aparência oriental, do comportamento introspectivo e do inconfundível jeito de vestir-se, Thiago (“com h”, como frisa) não é japonês, mas, sim, brasileiro. Que a imigração está mexendo com as estruturas da sociedade japonesa, isso é conhecido por muitos. O que a maioria das pessoas, porém, não se deu conta é que as mudanças estão indo bem mais fundo. O povo japonês que se considera homogêneo não apenas culturalmente mas, também, fenotipicamente assiste a um fenômeno que é tornou comum em países de imigração como foi um dia o Brasil: a miscigenação. Será que a sociedade japonesa está preparada para essa nova realidade social?

Nady tem pouco mais de 20 anos e conta sua estória num japonês impecável. Com 7 anos de idade, ela seguiu a família numa viagem que mudou sua vida. O casal iraniano trouxe a menina consigo para uma estadia provisória no Japão. Assim como a grande maioria dos imigrantes, o grande sonho era o retorno à Pátria. Algum tempo depois, Nady, cujo nome de registro é Elnaz Alali,  estava matriculada em uma escola japonesa. Com o tempo, ela aprendeu a língua e os costumes do país. A mãe, por sua vez, observava atônita as mudanças no comportamento da filha. Estava ocorrendo o que ela mais temia: Nady estava se tornando japonesa, o que dificultaria o processo de adaptação quando ocorresse o tão sonhado retorno. Num certo dia, a família decidiu voltar para uma visita aos parentes. Nady que, apesar de se expressar basicamente em japonês, se sentia uma estrangeira, sofreu um choque ao retornar à sua terra natal. Ela não se sentia capaz de fazer as coisas mais simples, como comprar um doce. A comunicação com os parentes e os meninos de sua idade era quase impossível porque ela estava esquecendo o persa. Seu desejo era voltar rapidamente para casa, ou seja, para o Japão. Nady percebera que já não era mais iraniana. Por outro lado, sua aparência não era a das outras meninas japonesas de sua classe. Nady estava dividida entre aquilo que reconhecia como sua própria identidade e o que a sociedade aceitava pela sua aparência.

Já Masayuki Gen nasceu no Japão, onde estudou, se formou e atua profissionalmente como diretor de TV. Sua aparência “oriental” não diz muito sobre sua origem. Com seu japonês nativo, seria facilmente identificado como japonês. Ele, porém, se apresenta como sansei zainichi kankoku-jin (terceira geração de coreanos no Japão). Como Nady, Masayuki resolveu ter um encontro com a terra que lhe disseram que era sua Pátria.  Pediu as contas no trabalho e foi para a Coréia do Sul. Ao iniciar sua vida local, sentiu o quanto não era “coreano” e acabou voltando para o Japão.

Japoneses de alma, mas não de facto
Porém, como os personagens que ele entrevistou para o documentário Nihon No Passport Hoshii Desu Ka? (Quer um passaporte japonês?) a já citada Nady entre eles, Masayuki não possui a nacionalidade japonesa. Motivo: a lei local, baseado no princípio do jus sanguinis, reconhece a cidadania nata apenas para os que são filhos de japoneses.

No evento No Borders (em português, “sem fronteiras”), organizado pela Rede Voluntária de Residentes Estrangeiros no Japão no último dia 18 de novembro, foi promovida a mesa-redonda Há espaço para nacionais de origem estrangeira na sociedade japonesa?, onde histórias como as de Masayuki e Nady foram compartilhadas com um público formado por pesquisadores, estudantes e jovens que vivem a mesma situação. Era gente de diferentes origens e experiências de vida reunida num espaço bem diferente das tradicionais conferências que costumam ter um falante em cima do palco e os ouvintes na parte de baixo. No No Borders, o espaço foi um círculo onde quem quisesse poderia se manifestar sobre os temas abordados.

Crianças brasileiras vivem os mesmos conflitos
Como Nady e Masayuki, muitas crianças brasileiras vivem o mesmo dilema. É o caso de Juliana Harumy Rodrigues Usami que veio para o Japão pela primeira vez aos três anos de idade. Sua estadia foi curta: apenas dois anos. Porém, aos oito estavam de volta e desde então já se foram mais de 10 anos. A família, porém, nunca escondeu o desejo de voltar ao Brasil. Por isso, em casa, só se falava o português. “Minha mãe era bem exigente com isso”, lembra Juliana. Na escola, a menina conheceu a cultura e aprendeu a língua japonesa. “Nunca tive dúvidas sobre ser brasileira”, conta ela em sua apresentação, “mas, eu me pego pensando sobre qual é o meu país”, prossegue ela para concluir que, na maior parte do tempo, ela pensa e fala em japonês. Aluna do curso de Letras de uma prestigiosa universidade na província de Osaka, Juliana hoje pensa em ajudar as crianças e jovens que passam pela mesma experiência que ela. “Na época que eu estava no kookoo (ensino médio), dava palestras para explicar como funciona o sistema educacional japonês, já que muitos pais não sabem que é preciso fazer uma prova para ingressar no nível médio e que é preciso estudar”, conta a moça, que, então, morava com a família na província de Shizuoka.

Tendo falado logo depois de Nady, a brasileira Nancy Lissa Miyagasako contou que sua experiência era exatamente oposta à vivida pela colega. “Pela minha cara, é difícil alguém não acreditar que eu não sou japonesa”, diverte-se ela. Nancy viveu no Brasil até os 9 anos de idade. Desde que chegou ao Japão estudou em escolas públicas locais. No Brasil, ela teve uma experiência única para a sua geração: em casa, seus avós falavam apenas japonês, o que fez com que ela se familiarizasse com a língua. A vida ao Japão fez com que a Nancy mergulhasse de cabeça no mundo local. Porém, algo parecia estranho. “Na relação com os japoneses eu fui percebendo que eu era diferente”, conta ela. Depois de graduada em relações internacionais, Nancy foi procurar suas origens e acabou encontrando a comunidade brasileira de Tsurumi (província de Kanagawa) onde foi tendo contato com professoras que ensinavam português para crianças. Como os alunos, ela própria foi recuperando a língua e reconstruindo sua identidade. Atualmente, Nancy trabalha num grupo escolar de ensino à distância.

Internacionalização Invisível
Além da presença dos imigrantes em si e de seus filhos, a chamada internacionalização do Japão está seguindo nas ondas do amor. Segundo o pesquisador Arudou Debito, anualmente ocorrem no Japão cerca de 40.000 casamentos entre japonês e estrangeiro, um aumento de 30% que vem se verificando desde 2000. Desses matrimônios, nascem por ano cerca de 21.000 crianças que são chamadas de hafu ou daburu (respectivamente, do inglês, half e double, “mesclado” e “duplo”, em português), palavras que vêm ganhando a mídia, muitas vezes com conotações pejorativas. Essas crianças têm nacionalidade japonesa e, como o censo local não distingue os indivíduos por raça ou cor, são tratadas estatisticamente como os outros nativos. Esse tratamento igualitário, porém, não se traduz na realidade. Em seu livro Japanese Only (em português, “Só Para Japoneses”), o pesquisador relata o nada agradável acontecimento ocorrido durante uma ação em que seu grupo de ativistas tentou ser aceito num dos onsens (banhos públicos) da cidade Otaru (Hokkaido), o qual proibia a entrada de estrangeiros. Em família, os ativistas argumentavam, em vão, pelo direito do grupo de banhar-se com suas crianças. Num determinado momento, o funcionário decidiu “selecionar” quem poderia entrar e uma das duas filhas do pesquisador — a gracinha de cabelos negros e olhinhos puxados do início desta matéria — teve a entrada permitida, enquanto a outra — mais ruivinha — era barrada. Ambas cidadãs japonesas, as meninas recebem distintos tratamentos por causa de sua aparência. O problema é um dos lados de uma questão que o pesquisador chama de “internacionalização invisível”. Caso siga nesse ritmo de crescimento, é provável que cada vez mais crianças japonesas passem pelo terrível constrangimento de ter que mostrar um documento para fazer valer seus direitos de cidadão. Ou, ainda assim, serem recusadas em estabelecimentos apenas por não parecerem japonesas.
Com o baixo crescimento da população japonesa, a necessidade de mão-de-obra que produza e contribua para a previdência social é cada vez maior. Porém, o país ainda parece não ter entendido que a questão não é apenas “inevitável mal passageiro”. A menos que a economia japonesa entre em colapso, o que não é desejável para ninguém, estrangeiros continuarão entrando no Japão e incorporá-los dignamente à sociedade é algo urgente.  Isso significa, dentre outras coisas, repensar os rígidos critérios que dificultam a nacionalização dos imigrantes e de seus filhos. Isso inclui, ainda, o caso dos zainichi kankoku-jin (“coreanos no Japão”, em português), que chegaram à sua quarta geração e continuam sendo tratados como estrangeiros. Além disso, falta compreender que, tão criativos como jovens que circulam pelas ruas de Harajuku, os “novos japoneses” trazem novas experiências culturais, diferentes caras e, porque não dizer, distintas formas de beleza para um país já tão interessante quanto o Japão.

Revisto, do publicado originalmente em Alternativa.

Tags: Cotidiano · Dekasseguis - Brasileiros no Japão · Sociedade

1 response so far ↓

  • 1 Um mano na enka // Mar 4, 2008 at 4:56 am

    […] Leia mais As Novas Caras do Japão (e dos Japoneses) […]

Leave a Comment