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Hillary, o Himalaia e o meio-ambiente

January 11th, 2008 · 1 Comment

Faleceu no último dia 10 o montanhista Edmund Hillary, um dos primeiros homens a alcançar, junto com o sherpa Tenzing Norgay, o topo do Monte Everest. Muito se têm falado da bravura e do heroísmo de Hillary por ocasião de sua morte. Apesar de não conhecer sua história por completo, acho importante compartilhar uma reflexão que participei na cadeira de Sociologia Ambiental do meu mestrado.

A reflexão partiu do texto Kankyoo No Shakaishi Kenkyuu No Shiten To Hoohoo - Seikatsu Kankyoo Shugi To Iu Hoohoo (ou, em tradução livre, Metodologia e Ponto-de-vista da Pesquisa Sócio-histórica do Meio-ambiente - A Metodologia da Doutrina do Meio-ambiente Vivido) do sociólogo Hayakawa Akira. Ele discute como as práticas de comunidades tradicionais no trato do meio-ambiente foram sendo substituídas por legislações geralmente produzidas fora de seus âmbitos e que acabam por gerar efeitos inversos aos esperados. O autor trabalha como estudo de caso justamente a relação que Edmund Hillary travou com as comunidades do Himalaia por ocasião da conquista do Everest.

Rapidamente, apenas para contextualizar, Hillary não teria conseguido a façanha se não tivesse recebido o suporte das populações locais, especialmente do povo de uma pequena vila chamada Namche Bazaar. O montanhista procurou ser grato àquelas pessoas e, ao voltar para a Nova Zelândia, levantou financiamento para uma série de projetos que, em resumo, levaram a “civilização” para o local. Foram construídas escolas e uma estrada que facilitou a conexão entre a vila e as áreas mais urbanizadas. A partir daí, e no rastro da conquista do neo-zelandês, cada vez mais montanhistas e aventureiros passaram a ter o Everest como destino. Não preciso sinalizar que todas essas “modernidades” criaram um impacto no modo tradicional de vida dos cidadãos da vila e, por conseqüência no próprio ambiente. Uma das atividades que se intensificou foi o corte das árvores. Isso porque os moradores passaram, também, a exercer uma outra atividade econômica: a hotelaria. Até então, árvores eram usadas apenas para a construção das casas dos locais e para o aquecimento de suas famílias. Porém, a demanda por abrigo e aquecimento aumentou gerando mais demanda por lenha e o corte de mais árvores. Antes das mudanças, a vila mantinha uma forma milenar de se relacionar com a floresta, baseada em crendices mas que, porém, atuava satisfatoriamente no controle do corte e produção da madeira.


Hillary e o Himalaia, na nota de 5 dólares neo-zelandeses

Sensível, Hillary entendeu o impacto que as tranformações que levara causou no modo-de-vida e no ambiente da vila. A partir de então, ele passou a lutar pela preservação da natureza do local. Uma de suas lutas foi pela criação de um parque nacional onde a floresta pudesse ser preservada. Porém, o parque encampou parte das terras que o vilarejo utilizava como reserva de recurso natural. Portanto, a vila passou a ter regras externas para se utilizar daquilo que seus moradores controlaram ao longo de sua história, e com sucesso, por tanto tempo.

Óbvio que para preservar o novo meio de vida, a população de Namche Bazaar, segundo Yoshikawa, passou a buscar meios para burlar as regras estabelecidas. E, como relatou o próprio pesquisador em sua visita ao local no ano de 1989, “quando entrei em Namche Bazaar, com exceção das pequenas árvores de reflorestamento, não vi nenhuma floresta ao redor da vila”. Um enorme contraste com a descrição feita por Hillary quando esteve no local pela primeira vez em 1951: “toda área é de um verde inebriante e abaixo da vila cresce frondosa uma imensa floresta de coníferas”.

Com a morte de Hillary, muitos de seus admiradores vêm destacando seus feitos e apontando o montanhista e filantropo como exemplo de perseverança e trabalho. Acrescento, com esse singelo texto, um ponto para reflexão a mais. Que o exemplo de Hillary possa nos levar, também, a pensar outras formas de relação com o meio-ambiente.


Sir Edmund Hillary 1919-2008
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Photo: Graeme Mulholand (Creative Commons Licensed)

As fotos de Namche Bazaar estão licenciadas sob GNU Free Documentation License

Agradecimento especial: Hiraoka Yoshikazu, phD.

Tags: Meio-ambiente · Outras paisagens

1 response so far ↓

  • 1 Paulo // Jan 12, 2008 at 4:38 pm

    Ótimo ponto. Muito importante jogar luz sobre esse aspecto do assunto, num momento em que todos, até mesmo os que desconhecem totalmente o tema, estão louvando a parte amplamente divulgada do montanhista.
    Abraços

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