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Cantora Transexual Participa do “Koohaku Utagassen”

December 11th, 2007 · 2 Comments

Você sabe qual o programa de fim-de-ano aqui no Japão? Bem, diferente do Brasil, por aqui o programa de fim-de-ano é ficar colado na telinha. Sim, enquanto os brasileiros do outro lado do mundo querem mais saber de rua, de festa, de beira-mar e outros quesitos indispensáveis, o japonês comum fica em casa na noite que nós chamamos de reveillon, de olho no Koohaku Utagassen (algo como “Batalha Musical Em Vermelho e Branco” ou “Festiva Batalha Musical”), o tradicional programa de fim-de-ano da NHK, a TV pública japonesa. Com a audiência em queda há alguns anos, o programa tem buscado atrair um público mais jovem sem, claro, esquecer os mais velhos.

Apresentam-se no Koohaku os artistas considerados populares pelos produtores do canal e, claro, de perfil ilibado no ponto-de-vista dos organizadores. Por isso, artistas polêmicos raramente são convidados a participar do programa. Para se ter uma idéia, o cantor DJ Ozma (apesar do “DJ”, ele não é disc-jóquei”) foi declarado persona non grata porque, no ano passado, apresentou-se com bailarinas que vestiram figurinos que simulavam nudez. Simulavam, eu disse. Tratava-se de roupas que vestiam o corpo inteiro! Os produtores, claro, disseram que o cantor não os informou sobre o tipo de figurino. Acontece.

Por isso causou uma certa surpresa a confirmação da cantora Nakamura Ataru no elenco deste ano. Nakamura nasceu do sexo masculino e fez cirurgia de adequação genital depois de ter sido detectado que ela sofria de transtorno de identidade de gênero, ou seja, um transtorno no qual o indivíduo tem a identidade de gênero distinta daquela que foi designada quando do seu nascimento. Em palavras mais fáceis, o sexo da “cabeça” do indivíduo é diferente daquele que o “corpo” mostra.


foto: MSN Music

Nakamura iniciou sua carreira sem revelar que era transexual. Seu primeiro single chamado Yogoreta Shitagi (ou “Calcinha Suja”, uma preferência nacional) não foi muito bem sucedido nas paradas locais. Sua segunda canção, Tomodachi No Uta (”Canção do Amigo”) também não alcançou o sucesso até o seu kamingu auto (”comming out”, ou “saída do armário”). Neste momento, as atenções voltaram-se para Nakamura que entrou no Top 10 de singles japoneses e, desde então, tornou-se popular. Em seguida, a moça protagonizou o drama para a TV Watashi Ga Watashi De Aru Tame Ni (”Porque Eu Sou O Que Sou”) que conta a estória de uma transexual e sua crise com a família.


Sugestiva capa do single Yogoreta Shitagi

Por sua saída do armário, Nakamura Ataru tornou-se uma referência para outras minorias sexuais. Aliás, os trangêneros são menos mal-vistos pela sociedade japonesa do que gays e lésbicas e, por isso mesmo, têm mais visibilidade. Transexuais podem usar o serviço público para o tratamento de adequação de gênero, desde que cumpram uma série extensa de pré-requisitos. Eles também podem efetuar a mudança legal de gênero, desde que não tenham filhos. Porém, a questão ainda é vista com muito preconceito e existe um sério problema de falta de médicos especializados em cirurgias de trangenitalização e no manejo de medicamentos para a fase de mudança hormonal.


foto: divulgação

A participação da cantora Nakamura Ataru é ainda mais polêmica se pensarmos que o programa divide os competidores em dois grupos o vermelho, formado por mulheres, e o branco, composto por homens. Nakamura, claro, vai defender do grupo vermelho que está há dois anos sem vencer. Boa sorte para ela.

Vídeo:

Nakamura Ataru - Tomodachi No Uta
Nessa canção, ela fala de um amor não correspondido, de alguém que quer ser “apenas amigo”.

Tags: Música · Sexualidade

2 responses so far ↓

  • 1 Henagaijim // Dec 11, 2007 at 6:43 pm

    Me orgulho de ter um amigo antenadisssimo como vc. Por vc, sei de tudo que esta acontecendo no mundo das artes e outros que tais nesse Japao e logico o melhor: -sempre em primeira mao! bjsssss.

  • 2 Paulo // Dec 12, 2007 at 12:54 pm

    Fazendo coro com a Fátima, uma das coisas que mais admiro em seus textos sobre o Japão é a profundidade. Nada é superficial, tudo parece ser bem pesquisado antes, e as informações sempre procedem.
    Agora estou na fase de descobrir seus filmes!
    Abraços

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