Uma das coisas que mais me preocupa dentro do meu nicho de pesquisa, que relaciona a questão da escola e da identidade étnica dos brasileiros no Japão, são as relações familiares. Por isso, andei pesquisando alguns textos sobre a questão da família imigrantes no Japão e através da professora Keiko Funabashi da Universidade de Shizuoka encontrei um excelente artigo sobre o tema chamado Crafting Migrant Women’s Citizenship In Japan: Taking “Family” As A Vantage Point (algo como “Construindo a Cidadania das Mulher Imigrantes no Japão: Tomando a Família como Um Ponto Privilegiado”) da pesquisadora Ruri Ito do Instituto de Estudos de Gênero da Universidade Ochanomizu em Tóquio.
Neste texto, a autora discute, de forma comparativa, como as mulheres brasileiras e filipinas produzem seu espaço como cidadãs e migrantes no Japão através das relações familiares. Ou, ainda, numa mão inversa, como essas relações produzem a mulher migrante dessas duas nacionalidades. Antes de ir na questão da autora, vale uma pequena digressão sobre as situação desses dois grupos de mulheres no Japão contemporâneo.
As brasileiras no Japão são, em grande maioria, descendentes de japoneses que começaram a vir como imigrantes temporárias a partir de 1990. A estrita lei imigratória japonesa permite a estrangeiros apenas o trabalho qualificado. Naquele ano, por causa da grande necessidade de mão-de-obra não-qualificada e o enorme número de imigrantes ilegais de outras regiões da Ásia principalmente, o governo japonês permitiu aos descendentes dos antigos emigrantes que se estabelecessem no país com possibilidades de trabalho semelhantes aos dos japoneses. Com isso, abriram-se as portas para uma mão-de-obra não-especializada que se encontrava imersa nas crises econômicas de países como o Brasil, o Peru, a Argentina e a Bolívia. No início, porém, a quantidade de mulheres que se arriscaram na aventura “dekassegui” era bem inferior ao dos homens mas, com o tempo, essa proporção se tornou mais equilibrada. Além das nikkeis (descendentes de japoneses), há também as esposas dos nikkeis que, pela lei, gozam de status semelhantes aos de seus maridos.
Por sua vez, as filipinas chegaram na mesma época que as brasileiras e, majoritariamente, por duas vias legais. A primeira delas é através do visto de “trabalhadoras da indústria do entretenimento”. Isso quer dizer que, em sua maioria, essas migrantes têm status de “artistas” e trabalham, em sua maioria, em clubes noturnos como dançarinas. Muitas delas, ainda, exercem a atividade de hostess em clubes e em bares conhecidos como sunakku (corruptela de “snack”, ou aperitivo). A atividade de hostess é bastante difícil de definir uma vez que pode se referir apenas à companhia para um solitário num bar ou, ainda, envolver contato físico, com ou sem sexo, com determinado cliente. Porém, o certo é que a grande maioria das mulheres envolvidas no serviço de hostess não são prostitutas.
Partindo das relações familiares, a autora fez comparações entre as migrantes brasileiras e as filipinas. Boa parte das brasileiras vêm para o Japão acompanhada de suas famílias. Essas mulheres trabalham na indústria, através de empreiteiras. A grande maioria delas ganha cerca de 70% a menos que os homens, mesmo realizando as mesmas funções. Isso é ilegal também no Japão. Mas, é uma prática disseminada. Mesmo assim, o que essas mulheres ganham aqui é bem mais do que elas conseguiriam fazer no Brasil. Além disso, como a grande maioria delas trabalha. Elas, caso sejam nikkeis, têm autonomia para seguir suas vidas de forma independente, porque não precisam de maridos para garantir-lhes o visto. Ainda, não são poucos os casos de mulheres que chefiam a família mesmo sendo casadas, visto que a mão-de-obra masculina é mais cara e substituição de homens por mulheres vêm ocorrendo com alguma freqüência.
O caso das filipinas é um pouco diferente. A grande maioria dessas mulheres pode ser dividida em dois grupos: as que vieram para o Japão com visto de “artista” e as que se casaram com japoneses e, por isso, possuem o estado de “esposas de nativos”. As primeiras são, muitas vezes, vítimas de uma indústria que recruta mulheres para trabalhos ligados a indústria do sexo.

Muitas relatam serem obrigadas a fazerem serviços para os quais não foram contratadas. Outras se dizem enganadas pelos agenciadores no momento do recrutamento. Os contratos de trabalho são obscuros e, muitas vezes, as autoridades fazem vista grossa a isso. Além disso, a atividade de “artista” não é regulada dentro das leis do trabalho. Do outro lado, estão as “esposas”. Algumas delas, são mulheres que vieram com o status de “artistas” e se casaram com algum japonês, possivelmente clientes. Outras vieram das Filipinas casadas, um fenômeno conhecido aqui no Japão como “esposas asiáticas”, ou seja, mulheres estrangeiras escolhidas como esposas por homens japoneses. Nesse caso, é interessante verificar que essas mulheres têm seu visto vinculado ao laço matrimonial. Ou, ainda, futuramente, ao filho japonês que elas possam vir a ter. Diferente das brasileiras, as “esposas” filipinas nem sempre estão no mercado de trabalho e, portanto, são duplamente vinculadas aos maridos. No caso de separação, elas podem adquirir o status de “residente permanente” se comprovarem que são os responsáveis pela criação do filho japonês. (Note-se, a mulher não tem direito à nacionalidade do parceiro/filho.)
Muitas coisas poderiam ser discutidas acerca das mulheres brasileiras e filipinas no Japão. Porém, deixemos mais para outra hora. Caso haja questões ou comentários, volto a abordar o tema em outro post. No mais, segue o link do texto para os interessados:












2 responses so far ↓
1 Henagaijim // Dec 6, 2007 at 10:25 pm
Eh meu caro, no passado, digamos: Ha mais de 20 anos muitas brasileiras e latinas nao descendentes vieram como “artistas”. Muitas fizeram a mesma trajetoria das filipinas e aindas estao por ai e formaram familia ou continuam na “noite” como dizem. Esse post da historia …te convido para fazermos uma reportagem sobre assunto……da ate livro! . Minha experiencia na ONG nos idos dos anos 90 aqui no Japao que dava suporte as “Escravas Brancas” como eram chamadas, mostrou-me outro mundo que nunca imaginei. Da experiencia, sobrou relatos, e amigas que ainda hoje tenho contato aqui no Japao mas preferem esquecer esse passado. Hoje o Japao eh mais rigoroso com esse visto de “artista” e com isso muitas jovens lindas e descendentes estao sendo agenciadas e convencidas pelos altos salarios a virarem “artistas”. Acho que mais por falta de investimento dos pais na educacao dessa mocas.
2 Solange Medeiros Lima // Mar 10, 2008 at 4:27 am
Vejo esse site,tao informativo,parabenizo!
Tenho uma filha,que se casou com nissei,aqui no Brasil,partiu par o Japao,morou lá por mais de dois anos,entao,veio dar a luz de seu filhinho aqui no Brasil;voltando recentemente para o Japao,se encontra em grande sofrimento com os esposo,por motivo incompátiveis,desejando o retorno para o Brasil.Seu esposo,assim fazendo constantemente ameaças,em ate mesmo nao deixar seu filhinho tao querido,vir em sua companhia.Seria isso possivel?Que proteçao tem uma mae e seu filho,nesse sentido,no Japao?
Gostaria de receber respostas,e orientaçoes para minha filha!
Ficando assim mui grata!
Solange Medeiros
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