MC Beto é líder de um grupo que ainda é o maior exemplo do que a integração entre jovens japoneses e brasileiros pode criar

Beto estava em cima do palco para apresentar as atrações do Festival Brasil 2007, ocorrido em Tóquio no mês de setembro. Sua preocupação era, além de simplesmente entreter a platéia, informar e educar. No primeiro dia, o Parque Yoyogi havia ficado imundo por causa do descuido da audiência e da falta de lixeiras bem sinalizadas e localizadas em áreas de fácil acesso. Com olhar sagaz e preocupação com a boa convivência, o MC estava no palco explicando a importância de manter a limpeza do local. O líder do Tensais MC’s, a primeira banda de japoneses e brasileiros a alcançar projeção local, tem uma filosofia que, num primeiro olhar, pode parecer bem conservadora. Ele rejeita as drogas e procura passar mensagens de superação das dificuldades e contra o crime. Rebeldia, definitivamente, não é causa desse paulista de 35 anos, filho de uma pernambucana e um japonês. Na correria para lançar o segundo álbum do Tensais MC’s, Beto anda preocupado com o futuro. Obstinado a vencer na música sabe que, apesar do sucesso obtido com seu primeiro trabalho, há muitas barreiras a vencer. “Se eu soubesse falar japonês melhor, tenho certeza que poderia ter ido mais longe”, reflete ele, conhecido por ter um domínio do idioma muito acima da média dos brasileiros que vêem trabalhar no Japão.

Os Tensais MC’s surgiram da junção de forças entre dois grupos: o primeiro, homônimo, formado por brasileiros e o segundo, HP Workshop, de japoneses. A formação do conjunto conta com 7 membros: os brasileiros MC Beto, suas irmãs Roza e Rose e o MC Q (kyu, como em inglês); e os japoneses Pay-ment, Hiroto Da Muscle e S.A.T. Skill. Eles estão juntos há cinco anos, a grande maioria deles dividindo-se entre a correria dos trabalhos “seculares” e o sonho de viver somente de música. Beto atua como líder e embaixador do grupo. Ele, quando veio para o Japão aos 17 anos, nem sonhava em fazer música. Foi na Terra do Sol Nascente que o artista floresceu. O cara cantava em karaoke e fazia sucesso. “Tinha gente que pedia para eu cantar uma ou outra música”, relembra ele. Ao mesmo tempo em que fazia alegria dos amigos, Beto juntava-se a grupos de dança e freqüentava festas. Uma destas fez com que o rapaz dormisse mais que a cama e acabasse faltando ao trabalho no dia seguinte. “Eu era chefe de linha e fui ao japonês que trabalhava comigo pedir desculpas porque a minha falta acabou sobrecarregando o cara de trabalho”, conta ele que foi honesto e disse para o colega o real motivo de sua ausência. A grande surpresa veio da reação do colega de trabalho que o perguntou a que tipo de festa ele tinha ido. A resposta — festa de hip-hop — acabou revelando uma afinidade entre os dois e foi o pontapé para que os fizessem sons juntos, dando origem ao Tensais MC’s atual. Tensai, sem o plural que o abrasileirou, significa “gênio” em japonês.

O reconhecimento veio de um concurso da Embaixada do Brasil em parceria com o Clube do Brasil e uma grande gravadora. O objetivo era revelar talentos jovens da comunidade brasileira no Japão. Porém, o concurso limitava a idade dos participantes e Beto e sua trupe quase ficaram de fora. Por sorte, eles enviaram um material que agradou aos organizadores que repensaram o critério “idade” e reformularam o concurso. Os Tensais MC’s foram os vencedores e levaram o prêmio de gravar um CD demo com 5 faixas. “A gente foi comendo o cérebro dos caras”, diz ele contando que chegaram até 8 e, por fim, as 10 canções que formam Faça A Coisa Certa, o primeiro álbum do grupo.

O segundo disco já está praticamente pronto e traz o tempero do samba brasileiro, ambição que o MC diz ter desde o primeiro trabalho. “Naquela época, não havia o D2 para mostrar que isso era possível e eu acabei sendo voto vencido”, lamenta ele por ter sido ignorado em seu pioneirismo. Ao escutar as faixas Samurai Malandro, MestiSoul e Lero-lero Brasileiro, o ouvinte vai enxergar vida própria no samba-rap produzido pelo grupo. As letras continuam exaltando o orgulho de ser brasileiro e mestiço e mostrando a realidade da classe popular no Japão, sem contrapor imigrantes e japoneses. O Brasil também não é esquecido, mas aparece bem longe daquela idéia romântica de “terra dos sonhos”. Entre um rap e outro, Beto ainda mostra sua veia de cantor romântico (ouça a canção Apenas Bons Amigos, cedida por ele para o site, lá no finalzinho da matéria) o que, de algum modo, causa um descompasso com as letras bem-humoradas e as batidas dançantes da parte mais hip-hop. Previsto para sair em dezembro deste ano, o disco novo dos Tensais MC’s será um EP e, mesmo antes de lançado, já se tornou um importante registro do pensamento de uma parcela da juventude que vem do Brasil para o Japão. Grupo este cuja voz ainda está silenciosa, mas que aos poucos vai sendo cada vez mais ouvida.
Ouça os Tensais MC’s - www.myspace.com/tensaisdoutrulado
Assista um vídeo com a entrevista completa e trechos de apresentação dos Tensais MC’s
Publicado originalmente em Alternativa.












2 responses so far ↓
1 Paulo // Nov 3, 2007 at 4:53 pm
Olá! Havia deixado um comentário no post sobre o garaigo, que ficou um tempo esperando moderação, e depois sumiu. Bom, vou tentar deixar outro comentário, esperando que o WordPress não o engula.
Acho que vou viciar no overmundo.
Abraços!
2 Henagaijim // Nov 8, 2007 at 9:44 am
Nossa Rmaxwell, como sempre arrasando com as reportagens dessas perolas da comunidade brasileira no Japão. beijos
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