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Por um japonês mais… japonês

October 12th, 2007 · 2 Comments

“Um guia para tornar os ininteligíveis estrangeirismos em algo mais fácil de entender”, esta é a frase que resume o mais recente trabalho do Instituto Nacional pela Língua Japonesa. Gairaigo Iikae Teian — ou Proposta Para Colocar os Estrangeirismos em Outras Palavras — é um guia que visa substituir as cada vez mais utilizadas — e cada vez menos compreendidas — palavras estrangeiras que, segundo o Instituto, vêm tomando conta da língua japonesa nos últimos anos.

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Capa do guia Gairaigo Iikae Teian

Um documento publicado pelo órgão há dois anos atrás já denunciava a preocupação dos acadêmicos com o uso exagerado de palavras estrangeiras não somente na imprensa ou no comércio mas, também, em órgãos públicos e de assistência social. A preocupação maior é com os mais velhos que, de acordo com pesquisa publicada pelo jornal Japan Times On Line, são os mais perdidos na não-tradução destes vocábulos estrangeiros para o japonês. Segundo o estudo, os maiores de 60 anos não entenderam mais que 2% dos 450 gairaigo (estrangeirismos) a que foram apresentados.

A língua japonesa tem uma íntima história com os estrangeirismos. O kanji, que é a base de sua escrita, é originário da China e, junto com ele, muitos vocábulos foram importados pelo japonês. Aliás, qualquer língua está sujeita a sofrer influências, ainda mais na era em que vivemos onde as informações culturais e científicas circulam numa velocidade impressionante e as pessoas viajam e migram com maior facilidade do que em outras épocas. E, não há língua viva que esteja livre da influência de outras. O inglês, considerada por radicais a língua mais predadora, é cheio de palavras originadas no latim e, nos dias de hoje, vem sofrendo uma enxurrada de palavras vindas do espanhol, principalmente nos Estados Unidos, onde a comunidade hispânica é grande e influente.

Porém, no japonês, é possível medir o impacto das palavras estrangeiras visualmente. É que a língua de Jun’Ichiro Tanizaki tem um modo especial de escrever o gairaigo. Explico: além do kanji, que é um conjunto de símbolos que representa idéias (ideogramas), podendo o som ser diferente de acordo com a palavra em que ele está sendo empregado, a língua japonesa utiliza mais dois conjuntos de símbolos, estes fonéticos, o hiragana e o katakana.

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Três modos de escrever a palavra katakana: de cima para baixo, em kanji, hiragana e katakana.

O katakana é utilizado, basicamente, para escrever palavras estrangeiras. Ou seja, quando alguém olha na paisagem, mesmo que não entenda o que está escrito, basta que saiba a diferença entre os três conjuntos simbólicos utilizados na língua para saber o que é palavra estrangeira. E, a partir disso, basta uma olhada nas vitrines e luminosos das grandes cidades do Japão para entender o motivo da preocupação dos estudiosos japoneses.

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Vista de Shinjuku, bairro de Tóquio. Em destaque, as palavras escritas em katakana.

Mas, não é só no comércio onde o gairaigo está ocupando espaço. Para o desespero dos preocupados pesquisadores, a moda atinge os discursos dos políticos e os serviços públicos oferecidos aos cidadãos. Para dar um bom exemplo, o Japan Times On Line referiu-se ao discurso anual no parlamento proferido ex-primeiro-ministro Shinzo Abe em janeiro. Na ocasião, Abe referiu-se a um purojekuto (projeto, em gairaigo, do inglês project) para criar uma nova kauntori aidentiti (do inglês country identity, ou seja, identidade do país) para o Japão. Além disso, cartazes onde se lê Japan, devidamente escrito em katakana, ao invés de Nihon ou Nippon, o nome oficial do país, também são vistos em anúncios do poder público e de particulares.

O guia citado lá no início da matéria foi criado para que os leitores possam entender o que está sendo dito pelos pernósticos usuários de estrangeirismos e, ainda, segundo desejam seus autores, cobrem, principalmente em órgãos públicos, o uso de palavras que possam ser entendidas por todos. Além disso, quer servir como referência para que a imprensa e os governos encontrem substitutos em japonês para os gairaigo que não foram incorporados à língua.

Pelo que parece, o Japão está seguindo um caminho que o Brasil trilhou há alguns anos e creio que só há um meio de evitar que gente exibida continue usando estrangeirismos para parecer mais inteligentes que as outras: a educação. À medida que a população realmente aprende uma língua estrangeira, as palavras vão ganhando significado dentro dos seus contextos originais e não haverá espaço para os que gostam de aparecer. Ao popularizar o conhecimento de língua estrangeira, o país vai estar oferecendo a todos algo que, mesmo por aqui, ainda é coisa para poucos.

Tags: Aprender japonês

2 responses so far ↓

  • 1 A escrita na língua japonesa // Mar 1, 2008 at 8:11 am

    […] mais sobre a escrita em japonês: Por um japonês mais… japonês O Kanji do […]

  • 2 ANTONIO APARECIDO MIRANDA // Mar 8, 2008 at 10:39 pm

    MUITO BOM, PARABENS.. UM ABRACO.

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