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Para O Norte do Japão De Trem Comum - Hokkaido

August 10th, 2007 · No Comments

Saímos de Aomori logo depois do fim do festival. Quer dizer, paramos para jantar e depois partimos para tomar a barca com destino a Hakodate. Nosso objetivo inicial era chegar a Sapporo, capital da província de Hokkaido, a maior do Japão. Pamela, porém, precisava retornar ao trabalho e a viagem até lá usando o 18 kippu é demorada. Para se ter uma idéia, pode se ir de trem rápido — tokkyuu — em cerca de quatro horas. Mas de trem local — futsu — a viagem chega a 16 horas! Ah, vale lembrar que não estou falando de trens-bala — shinkansen. O trem mais rápido apenas faz o trajeto completo e para em poucas estações. Ao passo que o trem local para em todas as estações do trajeto e é necessário fazer muitas baldeações. A diferença de preços: a viagem pelo local, partindo de Aomori, saíria a 2.500 ienes, que é o valor de cada dia usando o 18 kippu. Já de trem rápido, o custo sobre para mais de 9.000 ienes.

(Deixamos Aomori com a expectativa de um grande tufão que acabou por cancelar o festival Nebuta por um dia e paralizou o serviço de barcas.)

Fomos para Hakodate porque era o local mais movimentado para o qual podíamos ir de barca. Trata-se de uma charmosa cidade no sul da ilha de Hokkaido. A população é de quase 300.000 habitantes. Hakodate tem uma papel especial dentro da história japonesa. Formava com Nagasaki, no sul de Kyuushuu, e Yokohama, no centro do Japão, a tríade de cidades que eram abertas ao comércio internacional, antes da abertura do país. Diferente de Yokahama que se tornou uma metrópole, Hakodate (como Nagasaki) conservou bastante deste passado de contato exclusivo com o mundo exterior. A cidade possui uma arquitetura bastante europeizada e utiliza isso como meio de atrair turistas.

Como Hakodate fica numa península, é agraciada, ainda, por uma extensa ligação com o mar. Do alto do estratégico Monte Hakodate — Hakodate Yama — é possível ver a cidade estreita, espremida pelo mar. Lamentavelmente, fomos num dia de muita nebulosidade e pouco pudemos desfrutar da vista noturna que é considerada a mais bela do Japão. Após descermos o monte, demos um rolê pelas construções do século XIX e outro desapontamento. A iluminação era precária e a promessa de “cidade luz”, é assim que Hakodate se auto-apresenta aos turistas, quase foi por água abaixo. Por fim, jantamos numa loja de lamen e nos preparamos para voltar para casa, quer dizer, pro nosso cyber café.

Levantamos cedo para tomar um trem para Shiraoi. O objetivo era visitar um museu de cultura Ainu. Como a cidade é litorânea e há uma hora dela podíamos tomar uma barca noturna para Honshuu, achamos que era melhor opção do que encarar as quase 10 horas que nos separava de Sapporo. Porém, tivemos que colocar as mãos nos bolsos porque se fôssemos de trem local chegaríamos na hora que o museu iria fechar. Para economizar, ao invés de circular de trem rápido por todo o trajeto, checamos, com a ajuda do oficial da estação, a melhor estação para trocarmos por um trem local que permitisse que chegássemos a Shiraoi num bom horário. E foi assim que descobrimos Noboribetsu. Deixo que as imagens e a emoção do momento fale por mim.

Após quase uma hora de espera em Noboribetsu, partimos para Shiraoi. Ao chegar, comemos alguma coisa e fomos visitar o Poroto Kotan que a reprodução de uma vila ainu na beira de um grande lago. Os ainu são uma das minorias étnicas do Japão. Eles foram conquistados no final do século XVIII e, desde então, foram considerados cidadãos de segunda classe no Japão. Com isso, muitos ainu deixaram o norte do país e se misturaram à população japonesa mainstream e esqueceram suas raízes. Há alguns anos, porém, pesquisadores e remanescentes procuram manter a história ainu viva o que é, de certo modo, tarefa difícil. Os ainu não tinham escrita e com a aculturação e a assimilação pela sociedade japonesa, as tradições orais foram sendo perdidas. Segundo o guia do museu, não há mais falante original da língua ainu vivo. Aqueles que falam são, em sua grande maioria, pesquisadores. A Pamela fez uma matéria bacana no local e estamos nos preparando para finalizá-la e colocá-la aqui.

Saímos de Shiraoi para Muroran, onde tomaríamos a barca de volta para Aomori. Estávamos exaustos e não encontramos nenhum lugar para tomar banho na cidade. A sorte, porém, é que a barca possui um pequeno sentô e nós pudemos tomar um banho e, ainda, relaxar. (Vale um parênteses: meu amigo Fernando explicou que a diferença entre sentô e o ofurô é a existência de águas termais, corrigindo o que eu havia escrito no post anterior.) Aliás, foi nessa barca que aconteceu uma experiência que me desestabilizou na viagem. Como é algo bastante íntimo, vou me abster de contar. Porém, foi uma coisa que me fez pensar sobre “estar no local errado com a pessoa certa”.

Chegamos limpinhos e bem dormidos às seis da manhã em Aomori. Nosso destino era, agora, o Festival Neputa em Hirosaki. Bem, só para lembrar, antes vimos o festival Nebuta em Aomori. A historiadora do Museu Neputa nos explicou a diferença: nenhuma. Quer dizer, os dois festivais têm a mesma origem. Porém, com o passar do tempo, foram se diferenciando. Aliás, falar da origem do festival é um tanto quanto complicado. Alguns afirmam que trata-se de uma espécie de comemoração pela conquista das terras dos ainu. Por outro lado, diz-se que há registros de mais de 300 anos da existência do evento, ou seja, anteriores à tomada. Os desenhos e bonecos que representam a guerra são, sem sombras de dúvidas, referências a um povo combatente. Aliás, a mais notável diferença é exatamente a arte dos carros alegóricos. Enquanto os do Nebuta são tridimensionais, os do Neputa são em duas dimensões. Entrevistamos, aliás, um dos mais conceituados artistas locais. Porém, esse é mais um aguarde e confira.

Depois do Neputa, eu estava nas últimas. A experiência da barca, as bolhas explodindo nos pés, as noites mal-dormidas, os trabalhos da faculdade para entregar… Decidimos voltar. Estávamos sem banho porque não achamos sentô em Hirosaki. Nem paramos em Sendai que era nosso plano. Viemos direto. Pamela até Tóquio e eu, ainda, até Shizuoka. Foram 16 horas e meia de viagem. Por tudo que vivi, posso dizer que foi minha viagem mais louca. Graças à Pamela. E ao 18 kippu, claro!

Veja o slide show da viagem:

http://www.flickr.com/photos/robertomaxwell/sets/72157601331930914/show/

Tags: Viagem · Trens

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