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Para O Norte do Japão De Trem Comum - Tóquio e a Música Brasileira

July 29th, 2007 · 3 Comments

Assim como tudo, foi no improviso. Saí de Shizuoka no sábado 21 com destino a Tóquio e ainda sem o 18 (lê-se, em português do Brasil, “juu ratchi”) kippu. Tomei um shinkansen, o trem-bala, porque tinha marcado um encontro com meu amigo francês, o Sylvain e acordara tarde. Porém, o cara estava para lá de Bagdá, depois de ter tomado todas na noite anterior. Só nos encontramos à noite. Fiquei rodando em Shibuya, onde me encontrei com a Patrícia, uma argentina que estuda na Alemanha e vive na Espanha. Ela retorna no dia 1o. para concluir seu curso na Universidade de Bonn depois de quase um ano de intercâmbio no Japão. A história da Patrícia é muito interessante, mas não cabe nesse relatório. Vou sentir saudades dela.

Domingo fomos, eu e o Sylvain, à praia de Zushi para cobrir um baile funk organizado por uma japonesa chamada Miyashita. O funk carioca veio para o Japão trazido pelos imigrantes brasileiros, jovens que curtem música popular e escutam, ainda, pagode, axé e sertanejo, ritmos tidos como menores no Brasil. Porém, ainda não tem a mesma popularidade que se vê na Europa. Três DJs tocaram numa tenda chamada Pilequinho, uma espécie de bar na areia e esquentaram a massa. Em verdade, não eram DJs especializados em funk.

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Miyashita-san organizou o baile funk em Zushi

Ou, pelo menos, não tocaram apenas isso. Apenas o japonês Loco2kit foi apresentado como legítimo funkeiro mas o trabalho dele ainda… Ele tem uma coleção bacana de discos, mas tocou depois do DJ Xandy que fez uma performance melhor e ainda apresentou hits e mixagens que deixaram o meu amigo francês, louco por DJing,bastante animado. Rolou ainda o concurso da Popozuda do Verão. Não é que não tenha sido interessante ver as japonesas ganbatteando (“esforçando-se”, em japortuguês) para botar o rebolado em dia, porém, foi uma brasileira que levou o prêmio. Não preciso dizer mais nada. A organizadora é uma figura interessante. Ela estudou português na Universidade de Sofia e conheceu o funk durante o seu intercâmbio de 1 ano no Brasil. Ela que na universidade fazia parte de um círculo de hip-hop, achou que o funk poderia pegar no Japão e decidiu aprender a dançar. Ela conta que, por causa da batida, o estilo pode agradar os japoneses que não entendem as letras um pouco “pesadas”, segundo sua própria acepção. O evento foi bacana e quem sabe pode rolar outros ainda neste verão.

(Na segunda, encontrei com um casal de canadenses interessados em comprar as imagens que eu fiz do casamento da Otsuji Kanako em Nagoya. Eles estão produzindo um documentário sobre ela. Fiz uma fita com as imagens para eles. Espero que eles paguem por elas. Afinal, as pessoas se esquecem que vídeo-jornalismo é trabalho e que produzir imagens custa tempo e dinheiro

Fiquei mais ou menos de bobeira durante a semana. Aliás, foi um entra-e-sai de gente na minha vida. A Patrícia que volta para a Alemanha, a Renata que volta para o Brasil… São coisas de uma vida desenraizada. Porém, na quarta foi o show da Adriana Calcanhotto com o Moreno + Domênico + Kasssin em Tóquio. Foi interessante ver no Liquidroom, uma pequena casa que já recebeu nomes como o Massive Attack, uma mistura de brasileiros, estrangeiros de outras nacionalidades e japoneses embalados pelo som que os quatro produziram no palco. O público era completamente diferente do que estava no funk da praia de Zushi. Porém, Domênico surpreendeu com uma programação eletrônica com a qual introduziu a já conhecida versão de Adriana para Fico Assim Sem Você da dupla Claudinho & Buchecha.

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foto cedida por Latina - todos os direitos reservados

Dali, faltou pouco para desembocar num baile. Na verdade, mais uma vez pareceu que é necessária a benção de artistas “considerados” para que um estilo popular ganhe reconhecimento nas camadas mais altas da sociedade. A bem da verdade, seria injusto dizer isso. Não são as camadas mais altas que discriminam o funk mas, sim, aquele grupo pedante que acha que tudo que é digno de ser chamado de arte deve, antes, passar por suas mãos. Voltando ao show, escrevi sobre ele para a Alternativa e fiquei com uma sensação de que alguém tem que trazer a Fernanda Abreu para cá. Acho que ela conjuga exatamente aquilo que muitas daquelas pessoas estavam esperando: música popular dançante apresentada com uma boa banda. Digo isso porque depois de 40 minutos em pé vendo a performance de excelentes músicos, você pede uma cadeira ou quer dançar. E foi exatamente nessa lacuna que o funk entrou.

Sem dormir, embarquei para Nagano na quinta. A pauta, agora, era educação. Fui entrevistar a professora Maria Yokoya que atua oferecendo suporte escolar a crianças brasileiras matriculadas em escolas japonesas. Ela me recebeu com um almoço num delicioso restaurante de soba, uma espécie de massa em forma de macarrão grosso cozinhado e servido com água, o que faz com que a comida se pareça com uma sopa. Eu estava envergonhado por chegar completamente sonolento, depois de uma viagem de 6 horas de trem comum. (Saí de Asakusa, em Tóquio às 6:03 e cheguei em Nagano às 13:06, depois de três trocas de trem e já utilizando o 18 kippu.Batemos um papo de 2 horas na qual ela contou a sua histórias e os desafios de um trabalho bastante complexo. A entrevista fará parte de uma matéria sobre educação de brasileiros no Japão que ainda não tem data para ficar pronta. Fomos para a casa dela onde conheci seu filhinho, estudante da primeira série. Ele é japonês. Educado e alegre, ele procurava conversar comigo e me fazia sala. Preocupava-se se eu estava com fome, se eu queria água e, quando Maria me estendeu um confortável futon (algo entre um lençol muito fofo e um colchão um pouco fino que os japoneses usam para dormir) para que eu descansasse, ele teve o cuidado de ligar três ventiladores para que eu não sentisse calor. À noite, fomos a um onsen (banho público) onde ele me explicou direitinho cada um dos banhos. Fiquei me questionando porque eu não vou a esse tipo de onsen com mais freqüência… Nada melhor que relaxar num ofurô quente à luz da lua, mesmo no calor. Pela manhã, ela me preparou um café-da-manhã reforçado, seguindo o estilo japonês. Havia peixe, arroz, sopa de miso (misoshiro), salada, sucos e chá. E, claro, o filhinho dela fez questão de me servir e explicar o modo correto de comer cada coisa. Um luxo! Saí cedo para, então, partir para o segundo carimbo do meu bilhete. Agora, eu sairia de Nagano e iria até Echigo-Yuzawa onde estará rolando o Fuji Rock Festival. Conto notícias em breve.

Sexta, 27 de julho de 2007; 12:14; dentro do trem em direção à estação de Echigo-Yuzawa, entre Mitsudai e Tooka-machi.

O Projeto 18 Kippu é apoiado por Dux Solutions.

Tags: Música · Viagem · Trens

3 responses so far ↓

  • 1 Fernanda // Jul 30, 2007 at 1:54 pm

    Da-lhe Roberto andante viajeiro. E assim, conhecemos mais sobre tudo e sobre todos!!!! Um grande beijo!!! Ah, a Fernanda Abreu aqui seria o máximo, não é?

  • 2 Hamilton // Jul 31, 2007 at 8:07 pm

    È isso aí nêgo!
    Pè na estrada (ou seria no trilho?)!
    bjãozão

  • 3 Maria Yokoya // Aug 1, 2007 at 11:04 pm

    um brasileiro, um japonês
    um estudante de mestrado, um estudante da primeira série
    um que fala português e tenta se comunicar em japonês
    o outro que fala japonês e tenta entender português.
    diferenças de idade, de idioma, de nacionalidade, nada impediu a boa convivência multicultural e a boa hospitalidade.
    aguardamos a sua próxima visita em Nagano.
    Boas férias!

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