O novo modelo de trem-bala da Japan Railways é apenas um pouco mais rápido que os anteriores, mas é muito mais confortável
Comodidade e, claro, rapidez são os atrativos para quem viaja nos shinkansen, os trens-bala japoneses que operam no país desde 1964. Eles são objeto de orgulho para os cidadãos do Japão, país que foi o pioneiro no desenvolvimento do transporte ferroviário de alta velocidade, e objeto de adoração por aficcionados de todo o mundo. Mais de seis bilhões de passageiros já foram transportados durante estes 43 anos de atividades dos shinkansen no Japão e, coincidindo com o anúncio de que o Brasil pretende construir sua primeira linha de trens de alta velocidade entre o Rio e São Paulo, as Japan Railways (JR) Central e Oeste vem divulgando a estréia de um novo modelo a circular no serviço Nozomi (super-expresso que para somente nas maiores estações) da linha Tokaido-Sanyo (de Tóquio até Hakata, na ilha de Kyuushuu, sul do Japão) a partir do dia 1º de julho. Fabricada por uma parceria entre as desenvolvedoras Hitachi, Kawasaki HI e Nippon Saryo, a nova série N700 começou a ser fabricada em 2005 e passou por uma exaustiva bateria de testes antes de sua entrada em circulação. Projetado para uma velocidade máxima de 300 km/h, o novo modelo é um pouco mais veloz que seu antecessor da série 700. A ponta, que lembra o bico de um pato, ficou um pouco mais alongada e um novo sistema de suspensão a ar vai permitir que o trem faça curvas suaves mantendo a velocidade média de 270 km/h. O modelo 700 trafegava nas mesmas situações a 270 km/h. Além disso, o espaço entre os carros recebeu uma cobertura especial para minimizar o atrito com o ar e ruídos. Embora o N700 não tenha superado a marca da série 500 — 320 km/h de velocidade máxima e 300 km/h de pico em operação comercial — as mudanças encurtarão as viagens em cerca de 10 minutos. Isso com uma economia de energia entre 10 a 19% com relação ao modelo anterior.
Novas tecnologias para prorcionar mais conforto
Apesar destas alterações, o principal atrativo da nova série é o conforto. Novas tecnologias entraram em cena para tornar a viagem mais agradável e —por que não? — mais produtiva. Focando no público formado por executivos, a empresa implementou mudanças nas mesinhas que ficam acopladas à parte traseira dos assentos. Elas ficaram mais espaçosas para facilitar o uso de laptops. Além disso, todos os assentos dos green cars (a primeira classe nos shinkansen) e os assentos de janela e da ponta de cada vagão comum serão equipados com tomadas que poderão ser utilizadas tanto para alimentar os computadores quanto para a recarga de baterias, inclusive de telefones celulares. Estes também ficaram mais largos e a iluminação no interior dos carros ganhou funcionalidade. Assim como ocorre nos aviões, o passageiro poderá ajustar a luz do seu próprio acento, facilitando a leitura, por exemplo. Os passageiros da primeira classe contam com assentos com iluminação especial, um novo sistema que permite mais conforto quando reclinado e, ainda, serviço de rádio digital. A viagem também vai ficar mais silenciosa no N700. O modelo é dotado, além da já citada cobertura especial entre os carros, de uma estrutura em dupla camada que reduz a entrada dos sons produzidos pelo maquinário do trem. Além disso, o sistema de suspensão reduz a trepidação na cabine.
Sem carros para fumantes
Diferentemente das séries anteriores, o N700 não possui carros para fumantes. Estes poderão utilizar um dos 6 smoking rooms (salas de fumar) existentes em 4 dos 16 carros de cada composição. Isso reduz os riscos causados pelo chamado “fumo passivo”, proporcionando melhor qualidade do ar nos carros. Além disso, os painéis informativos existentes na ponta de cada carro estão maiores e trarão mais informações ao passageiro.
Inicialmente, o novo modelo só operará alguns horários do serviço Nozomi entre Tóquio, Shin-Osaka e Hakata (Província de Fukuoka). Porém, está no planos da JR utilizar apenas o N700 em todas as viagens deste serviço até o ano de 2009.
A história dos Shinkansen
Apesar do primeiro trem de alta velocidade ter sido inaugurado apenas em 1964, o Japão já vinha pensando no assunto desde os anos 30. O nome “shinkansen” foi usado pela primeira vez em 1940, quando o governo japonês apresentou um projeto que ligaria Tóquio à Shimonoseki (Província de Yamaguchi), no extremo sul da ilha de Honshu. O projeto contava com locomotivas elétricas com capacidade de atingir meros 200 km/h, duas vezes a velocidade das utilizadas no país à época. Durante a Segunda Guerra Mundial, o Japão tinha planos de trens de alta velocidade para ligar o arquipélago a Seul, Beijing e Singapura, através de túneis sob o mar e por via terrestre. Depois da derrota, o país abandonou os projetos por alguns anos, voltando a discutir o assunto apenas em 1958. No ano dos Jogos Olímpicos, a primeira linha — Tokaido, entre Tóquio e Osaka — foi inaugurada, com trens que atingiam a velocidade de 220 km/h. O sucesso foi imenso e em 1975, o shinkansen chegaria até Hakata. Mais tarde, outras linhas na direção norte foram sendo construídas, totalizando seis ramais e quatro sub-ramais.

Série 0, o primeiro Shinkansen
Até os dias de hoje, nenhum acidente grave foi registrado nos trens de alta velocidade japoneses. O incidente mais conhecido ocorreu em 23 de outubro de 2004, na linha Joetsu quando uma composição descarrilou próximo à estação de Nagaoka (Província de Niigata) devido a um terremoto. Na ocasião, não houve declaração de mortos ou feridos. Casos de suicídio, pessoas e pertencem presos às portas e parada de emergência feita por passageiros são raros, mas costumam ocorrer.
O futuro dos shinkansen no Japão está nas mãos de uma tecnologia chamada MAGLEV ou Trens de Levitação Magnética. Trens utilizando esta tecnologia literalmente flutuam sobre os trilhos, o que diminui o atrito e, portanto, aumenta a velocidade. Testes realizados em 2003 na linha experimental construída na província de Yamanashi atingiram a velocidade recorde de 581 km/h. O custo dos MAGLEV ainda é considerado muito alto para a exploração comercial e somente uma linha de 30 km de extensão opera na cidade de Shangai, na China. Outro grande problema é o alto ruído produzido pelo trem em alta velocidade, especialmente na entrada dos túneis. Um dos desafios da nova tecnologia é reduzí-lo a níveis mais toleráveis, principalmente para viabilizar sua construção em áreas povoadas. A tecnologia MAGLEV é, ainda, extremamente adequada ao montanhoso território japonês uma vez que a força magnética é maior que a da gravidade, o que permite manter a alta velocidade da viagem mesmo em áreas íngremes. O projeto da JR Central é usar este tipo de veículo na nova linha Chuo que ligaria Tóquio à Osaka por um caminho alternativo. Ainda não há previsão para o início das operações do MAGLEV no Japão.

MAGLEV, o futuro da tecnologia dos trens de alta velocidade
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