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Temporada de Caça Aos Formandos

July 2nd, 2007 · No Comments

Da universidade ao mercado de trabalho no Japão

Termina o ano e os universitários formandos entram em polvorosa. Como em qualquer outro país, a graduação é o fechamento de um ciclo para os estudantes japoneses. Janeiro é o momento decisivo quando as empresas de recrutamento abrem seus serviços de colocação de recém-formados no mercado de trabalho. A incerteza é grande e vem junto com o desejo de começar uma nova etapa na própria vida. Nas universidades, os professores nem se queixam. Eles já sabem que os graduandos vão faltar às aulas para participar dos processos seletivos. Algum abrem mão da tradicional lista de presença para não prejudicá-los e, no bom espírito japonês, evitar conflitos. Na segunda maior economia do mundo, janeiro é a abertura da temporada de caça aos formandos.

Konno Ryoohei tem 21 anos e cursa a faculdade de educação. “Quando eu entrei”, conta ele, “queria ser professor. Mas, depois que eu comecei a estudar, a me envolver em trabalho voluntário e nos círculos de atividades extra-curriculares, fui descobrindo outros interesses”, prossegue. Konno é o líder do círculo de fotografia da Universidade de Shizuoka, localizada na região Tokai, no litoral centro-leste do Japão. Desde o Ensino Médio ele tem a fotografia como hobby e, por isso, decidiu tentar uma vaga numa companhia que comercializa materiais fotográficos.

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Konno está se formando em educação mas optou por trabalhar em uma loja de produtos fotográficos

Ele passou por testes e entrevistas e foi selecionado para a vaga que era a sua primeira opção. Em abril, Konno sairá da universidade com um diploma de professor direto para o balcão de uma loja de produtos fotográficos. No Brasil, não são poucos os exemplos semelhantes entre os recém-formados. A diferença no Japão é que Konno, assim como milhares de outros estudantes, optam por trabalhar fora da área em que serão formados.

O processo de seleção é feito por empresas especializadas em recrutamento de talentos humanos. Os estudantes procuram as empresas pessoalmente ou pela internet e preenchem cadastros onde expressam seus interesses profissionais e apresentam sua carreira acadêmica. A grande maioria já acumula alguma experiência no mercado de trabalho, mas eles próprios costumam diferenciar shigoto — o emprego fixo, visando uma carreira profissional — de arubaito, popularmente conhecido no Brasil como bico. No Japão, apesar de a família, em geral, garantir o estudos até a graduação, os estudantes fazem os arubaitos como forma de garantir dinheiro extra para o lazer, viagens e planos futuros e muitos, ainda, auxiliam os pais nas despesas, visto que é comum mudar-se para outra cidade durante o período universitário. Os bicos, todavia, parecem não ter peso no currículo destes estudantes.

Por que estes formandos decidem abandonar a área em que se formaram após anos de estudo?

A desilusão com a universidade é tema recorrente em conversas com estudantes japoneses. É surpreendente para a maioria dos estudantes estrangeiros a relação que eles estabelecem com as aulas. Nas rodas de ryuugakusei (estudante estrangeiro), os comentários sobre alunos cochilando nas classes são tradicionais. Muitos dos universitários nipônicos se queixam da pressão sofrida durante o Ensino Médio e costumam levar a universidade de forma menos rígida.

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Os círculos de atividades parecem despertar mais os interesses dos alunos do que as aulas

Além disso, muitos deles, como Konno, descobrem novas áreas de interesse durante o período de graduação. “A gente entra na faculdade sem saber muito bem o que é uma profissão”, conta ele, refletindo um problema sério do Ensino Médio no Japão que é a orientação para o mercado de trabalho. Daí as mudanças de rumo após a formatura.

Mas, então, para que serve a universidade?

Apesar de não refletir a totalidade dos estudantes japoneses, Konno não é uma exceção. Para ele, apesar de ter optado por não seguir na carreira na qual vai se formar, o tempo na universidade serviu como uma oportunidade de socialização. “Estudar, a gente faz sozinho”, considera. “A gente pega um livro, lê e aprende sozinho. Mas, o network que eu fiz aqui”, conta ele apontando o repórter e o seu colega francês que entrou de gaiato na conversa, “eu não faria em lugar nenhum”, conclui.

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Universidade de Shizuoka: qual o papel da universidade nos dias de hoje?

Pelo visto, no mercado de trabalho japonês, a universidade talvez só faça diferença na formação de elites e de trabalhadores muito especializados. No mais, a política do emprego para a vida inteira, uma instituição um tanto estranha do capitalismo nipônico, garante a modulação do trabalhador para os interesses da empresa, algo que nenhuma universidade conseguiu oferecer a contento.

Tags: Modo-de-vida · Política e economia

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