Quando eu cursava cinema, um professor costumava contar a seguinte estória: em suas aulas de estética cinematográfica no Brasil, o diretor Carlos Reichenbach (Alma Corsária, Garotas do ABC, dentre outros) costumava provocar seus alunos exibindo filmes japoneses sem legenda. A idéia era que eles buscassem entender o filme pela imagem e pelo som, mesmo numa língua completamente desconhecida. Segundo o meu professor, Reichenbach dizia que os bons filmes são inteligíveis independente dos diálogos. Se essa estória é verdadeira, eu não sei. Mas, desde que eu vim morar no Japão, topei o desafio e decidi assistir os filmes japoneses que me interessam. Um deles foi o polêmico Ore Wa Kimi No Tame Ni Koso, Shini Ni Iku, produzido pelo recém-reeleito governador da província de Tóquio Ishihara Shintaro, e que tem os kamikaze, um dos pontos mais sensíveis da história japonesa recente, como tema central.
Embora seja um dos políticos mais populares e poderosos do Japão, o governador Ishihara está sempre às voltas com explicações sobre comentários considerados racistas, sexistas e outros “-istas” de má reputação. Por isso, o filme causou impacto na imprensa internacional que noticiou a sua estréia como parte da estratégia política de reforço das idéias nacionalistas e belicistas por parte dos políticos conservadores locais. Porém, muitos dos jornalistas parecem ter esquecido de fazer o dever de casa e não foram conferir in loco do que se trata a película.
Ore Wa Kimi No Tame Ni Koso, Shini Ni Iku (que em tradução livre quer dizer: “eu vou morrer no seu lugar”) conta a estória de um grupamento de soldados que se prepara para o ataque fatal. No momento histórico em que se passa o filme, o Japão já estava acuado pelas forças aliadas e, segundo uma fala dita logo no início da projeção, não havia como voltar atrás. Os ataques suicidas foram pensados, principalmente, com o intuito de evitar a chegada dos inimigos ao território japonês. Há uma crença geral de que estes soldados eram voluntários a serviço do império. Porém, estudiosos discutem até que ponto isso é realmente verdadeiro.

No filme, uma idosa rememora a estória dos moços que freqüentavam em seu pequeno restaurante que localizado próximo a uma base militar. São vários personagens que desfilam seus conflitos em meio às decisões políticas das quais participavam apenas como executores de tarefas. O longo desfile de personagens da mesma natureza (os soldados) talvez tenha enfraquecido o filme, numa comparação com Cartas de Iwo Jima de Clint Eastwood que, valendo-se da mesma estrutura, preferiu dar vozes a personagens de origens diferentes. Porém, nem de longe, Ore Wa… faz apologia à morte pela pátria, como alguns jornalistas estrangeiros chegaram a insinuar. Num dado momento, quando tudo se viu perdido através da voz do imperador no rádio negando sua origem divina, a pergunta é “para que mandamos nossos jovens à morte?”. Num país onde o mergulho no passado é entrar num lago de águas turvas, o questionamento chega ser corajoso.
No fim, guardadas as devidas distorções do meu desconhecimento da língua, saí convencido de que Ore Wa… não vai muito além de uma homenagem meio piegas aos cerca de 4000 jovens que morreram destroçando aviões em cima de outros jovens dentro de navios. No fundo, olhando o passado e o presente, é possível concluir que certo estava João do Santo Cristo, da famosa canção do Legião Urbana, que não protege “general de dez estrelas que fica atrás da mesa com o ✱ na mão”.
TRAILLER










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