
A noite ainda é daquelas agradáveis numa das maiores cidades do Japão. Nagoya foi o palco do evento que levou a banda brasileira Mukeka di Rato a tocar num dos templos do rock local, o Huck Finn. Abrindo a noite, estava o Nomares, única banda local formada por brasileiros no line up da noite. A história do caras que formam o Nomares só difere da grande maioria dos brasileiros que são forçados a imigrar por um singelo detalhe: eles amam a música e decidiram fazer algo mais do que apenas escutar. Decidiram produzir. Músicos brasileiros tentando a sorte por estes lados não faltam. É de conhecimento de muita gente que os japoneses curtem a música brazuca mais tradicional. Porém, novamente, Rafael, Akira e Caju são exceções: o que eles produzem juntos é o mais puro punk rock. E estão quebrando barreiras. Perdão pela colocação aparentemente fora de contexto, mas aqui no Japão tem valido a máxima chicobuarquiana: “você não gosta de mim, mas a sua filha gosta”. Os julinhos-da-adelaide locais sofrem o preconceito de trabalharem em serviços não-qualificados nas fábricas e por descenderem de imigrantes que deixaram o Japão em alguns de seus momentos mais críticos. Ou seja, para muitos japoneses, os nikkeis brasileiros, a despeito de o contrário ser a regra em muito dos casos, são apenas trabalhadores sem instrução, originários de famílias camponesas pobres. É o desconhecimento histórico que leva ao preconceito. Mas que, também, pode estar fazendo com que muitos jovens não dêem a mínima para a origem dos nikkeis imigrantes. E, quem sabe por isso, para muitos deles o Brasil — e os brasileiros, incluindo os nikkeis — é/são uma fonte inesgotável de ritmos e estilos musicais.
Na noite de 2 de maio, o que se viu foi bem diferente da tensão que separa funcionários brasileiros e japoneses em muitas fábricas. Embora no começo fosse possível ver os jovens em grupos separados, na hora do pogo, nacionalidade foi o que menos importou. Cabeças-quentes, apenas as dos organizadores, todos (muitos) anos acima do mínimo permitido para a entrada no evento. No final, os japoneses que inicialmente exclamavam surpresa pelo número de brasileiros na casa, comentavam, positivamente, sobre o jeito louco dos burajirujin (brasileiros, na língua local). O punk rock propôs uma experiência que alguns daqueles moleques nunca tinham vivido.
Talvez isso já seja suficiente para entender uma turnê do Mukeka di Rato no Japão e a existência e o sucesso entre os japoneses de uma banda como o Nomares. Pode ser que eles não sejam os responsáveis pelo fim das divergências étnicas entre japoneses e nikkeis brasileiros no Japão. Até porque eles só pensam em se divertir com a galera. No entanto, pelo menos uma porta de convivência está sendo aberta. Hajimemashite, muito prazer!
Sem mais delongas, Nomares:
Roberto Maxwell - Só um profile rápido do Nomares…
Rafael - O Nomares foi criado em 2005, né? …
Akira - Isso!
Rafael - … fevereiro de 2005. A gente está aí na batalha já vai fazer 2 anos… Em 2005, a gente gravou uma demo (nota: Pensamento Mal ê o nome do trabalho) que está aí sendo distribuída pelo Japão, tenho reconhecimento dos públicos japonês e brasileiro. Tá sendo bem legal pra gente porque…
Akira - …está tendo bastante retorno de shows, pessoas entrando em contato no nosso myspace…
RM - E como foi tocar hoje na mesma noite que o Mukeka di Rato e o Vivisick?
Rafael - Cara, sem palavras porque, assim, com 17 anos a gente ouvia Mukeka di Rato, bicho. Hoje a gente tem a oportunidade de tocar aqui com o Mukeka di Rato, com o Muga — que é uma banda japonesa de amigos da gente…
Akira - … das mais respeitadas bandas japonesas. Sem contar a casa de show, que é…
Rafael - 30 anos? nota: (o Huck Finn abriu em 1981, segundo o site deles.)
Akira - É um CBGB daqui…
Rafael - É considerado um CBGB daqui.
Akira - É muito, assim, gratificante para nós.
Rafael - A gente tenta sempre batalhar o nosso ideal, se dedicando para alcançar nosso ideal que é, tipo, agradar as pessoas…
RM - Além da banda, vocês fazem outra coisa? Vocês já conseguem viver só da banda?
Rafael - Bicho, eu trabalho em fábrica de segunda a sábado.
Caju - Todo mundo é dekassegui aqui.
Akira - Não tem jeito mesmo…
Caju - Isso aqui é diversão nossa.
Akira - É um prazer. Não tem jeito mesmo.
Caju - Música é diversão nossa. Ensaiar e tocar aqui…
Akira - A gente tem outras responsabilidades: trabalhar em fábrica como todo brasileiro aqui. Eu e o Rafael também temos uma outra banda de metal tradicional. A gente tenta conciliar tudo isso aí com trabalho, namorada, família, tudo…
Rafael - Então, o momento gratificante da gente estar se divertindo aqui já basta.
Akira - É só ter força de vontade e fazer de coração mesmo.
RM - Mas, rola uma intenção de profissionalizar a banda?
Caju - Isso é conseqüência do que a gente vai fazer mas é diversão. Acima de tudo, é diversão o que a gente faz.
Akira - Acho que tudo começa com isso dentro do underground. Igual o Caju falou é conseqüência se um dia de estourar…
Caju - Mas, se isso não acontecer só pelo fato de você conhecer as pessoas, de você tocar para as pessoas, já valeu a pena.
Rafael - Resumindo, ter o reconhecimento da galera, ver a galera pulando ali, acho que é mais gratificante isso… O tempo que a gente deixa de descansar, a gente está ensaiando… E quando a gente toca aqui e vê esse pessoal pulando aqui para a gente, sem palavras.
Akira - Sem barreira de línguas: japonês, brasileiros… Isso aí é muito legal.
RM - Como vocês vêem a cena de rock produzido por brasileiros aqui no Japão?
Rafael - […] A gente sempre incentiva o pessoal, tipo, a fazer o som aí, mandar bala… Bem legal, a gente está sempre apoiando a galera aí, a gente está sempre tocando.
RM - Mas, você acha, assim, que não há uma cena?
Rafael - Há uma cena…
Akira - Olhando antigamente, o negócio tá caminhando, assim, lentamente, mas está.
Rafael - Existe muito festival brasileiro de bandas…
Caju - Esse negócio, assim, de banda, acho que uma incentiva a outra. A gente foi incentivado, pelo menos para mim, por Diagnóstico, que gravou e teve música própria, fazia show. A gente viu aquilo e “nossa, que da hora”… Fomos lá e tentamos fazer, sabe? E, tipo, uma banda vai seguindo a outra, né cara?
Akira - Tem muitas bandas batalhando aí no cenário e isso é gratificante. Tá caminhando o underground aqui dentro, assim, em matéria de shows, pessoas que estão organizando se profissionalizando, divulgação na mídia, em geral mesmo.
Rafael - Isso é legal, cara, ver pessoas brasileiras aí tocando e tal… Hoje a gente viu uma banda japonesa que se chama Curioso cantando em português. Isso é gratificante porque você vê que o japonês gosta da música vinda do nosso país, certo? Isso também é legal pra gente. Fico feliz de ver isso aí também.
Links Para o Nomares
myspace - www.myspace.com/nomares
youtube busca -
http://www.youtube.com/results?search_query=nomares&search=Search
Publicada originalmente em Overmundo










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