A pergunta parte da forte afirmação do cineasta e crítico de cinema Inácio Araújo, um dos muitos entrevistados que compuseram a base de relatos reunidos pela jornalista Denise Mota da Silva no excelente Vizinhos Distantes — Circulação Cinematográfica No Mercosul. O livro, recentemente lançado, cobre a lacuna de material acadêmico que estabeleça conexão entre as estanques cinematografias dos quatro membros originais do Mercado Comum do Sul. Como num jogo de xadrez, a autora posiciona Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai no entrincado tabuleiro da produção de filmes do MERCOSUL, esta entendida marginalmente no contexto da indústria cinematográfica mundial.

Uma das propostas do livro é entender até que ponto a utopia de mercado que propôs o acordo entre os quatro países alcançou o campo da produção e da difusão de obras cinematográficas. A conclusão, como num filme hollywoodiano previsível, é conhecida por todos: mercados dominados pelo produto estadunidense, os países do MERCOSUL são incapazes de se estruturar enquanto bloco que faça frente a esta produção hegemônica. Desenhando uma trama que envolve desde a produção até o consumo dos filmes, a jornalista vai revelando os encontros e desencontros entre os atores cinematográficos locais, tratados como secundários em seus próprios mercados.
Na introdução, a autora apresenta as peças de seu quebra-cabeça e faz uma digressão histórica sobre a relação entre as cinematografias latino-americanas, sobretudo na utopia dos anos 60, onde primeiramente se forjou uma idéia de latino-americanidade cinematográfica. Da utopia socialista ao sonho neoliberal, Denise desenha a mudança da mentalidade que pede a integração: no passado, o subdesenvolvimento comum como identidade para a mudança social; no presente, a integração como vias de aumentar as possibilidades mercadológicas.

Cena de Árido Movie, de Lírio Ferreira
O primeiro capítulo apresenta um pequeno mas consistente release da produção cinematográfica recente de Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. O capítulo é como um saboroso review para os que vêm acompanhando as transformações empreendidas por estes países desde o início da década de 1990, quando Argentina e Brasil viram suas produções cinematográficas chegarem próximas a zero, até as chamadas Retomada (no Brasil) e Nueva Onda (Argentina).
A seguir, o tabuleiro é o mundo e o MERCOSUL é situado neste xadrez como um produtor secundário de cinema. A autora discute as produções recentes dos quatro países e faz citações de obras e autores de forma quase lúdica, levando o leitor a um interessante jogo de memória, onde ganha aquele que mais atenção vem dando as cinematografias dos vizinhos.

Cena de La Niña Santa, de Lucrécia Martel
O terceiro capítulo parte para a distribuição dos filmes. Parte do processo dominada pelas empresas multinacionais, a distribuição revela a fraqueza das obras cinematográficas dos países do MERCOSUL em seus próprios mercados e os caminhos pelos quais passam os filmes que acabam furando as barreiras dos vizinhos e chegando até eles. Em seguida, a autora parte para a exibição que, como a etapa anterior, está atrelada ao interesse das empresas multinacionais. Nos dois capítulos, o destaque é a excelente base de dados reunidos por Denise que conectou, creio que de forma inédita, o negócio do cinema nos quatro países. Além disso, os atores do processo — produtores, diretores, distribuidores, exibidores e promotores de políticas públicas — são chamados a uma discussão que revela os problemas comuns e as soluções desencontradas.

Cena de Whisky, de Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll
Mas, o maior tesouro do trabalho chega no quinto capítulo onde a autora apresenta, na íntegra, preciosos depoimentos de agentes do mercado cinematográfico dos quatro países. É gente da importância do brasileiro Adhemar Oliveira (fundador do Espaço Unibanco de Cinema); dos argentinos Adolfo Aristarain (Roma, dentre outros filmes), Lita Stantic (produtora de La Ciénaga, dentre outros), Daniel Burman (El Abrazo Partido); do uruguaio Manuel Martinez Carril (Cinemateca Uruguaya) e do paraguaio Enrique Collar. São considerações muitas vezes cheias de paixão de quem vive no furacão do que é produzir cinema de forma quase sempre marginal, muitas vezes dependente do estado.

Cena de Hamaca Paraguaya, de Paz Encina
Vizinhos Distantes — Circulação Cinematográfica No Mercosul chega ao mercado num momento delicado para os países da região, onde as produções começam a se estabilizar num número razoável no Brasil e na Argentina, a atingir um patamar novo no Uruguai e, até mesmo o Paraguai, sem tradição alguma de cinema, assistiu um filme seu ser premiado em Cannes (Hamaca Paraguaya de Paz Encina). No entanto, os mercados internos e, por extensão, o MERCOSUL encontram-se fechados para essa produção. Se há uma possibilidade de saída para o impasse através do bloco, o livro não é capaz de responder. Todavia, ele tem material de sobra para que os autores possam criar um ponto-de-virada neste roteiro.
Publicado originalmente no Overmundo










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