A liberdade poética do título acima poderia gerar problema se estivesse estampando uma matéria na imprensa japonesa. Enquanto palavras como biba ou bolacha se desgarraram do gueto gay e foram parar na boca do povo, chamar um homossexual de okama no Japão pode soar ofensivo. Okama seria o equivalente japonês para o nosso bicha. A palavra que pode ter um tom agressivo, também é usada no meio, entre pessoas com intimidade entre si. No entanto, como vivemos no Brasil há alguns anos passados, abrir mão do politicamente correto no Japão é adentrar terreno perigoso. Principalmente dentre os militantes a reação pode ser bastante forte, mostrando o atual momento vivido pelos gays e pelo movimento em defesa do direitos das minorias sexuais no país: a busca de uma identidade e de auto-afirmação.Apesar de estar longe das restrições que se vê em boa parte da Ásia, a vida homossexual é bastante complicada no Japão. Ao contrário dos outros países industrializados, o movimento gay e lésbico chegou tarde por aqui, assim como a atuação política em prol das minorias sexuais. Kanako Otsuji foi a primeira parlamentar a “sair do armário” no país. Otsuji é deputada na província de Osaka e fez o seu kamingu auto — a adaptação japonesa para a expressão “comming out” — na Parada do Orgulho Gay e Lésbico de Tóquio do ano passado. Segundo ela mesma recorda, sua atitude chamou a atenção da população de todo o país. “As pessoas tomaram consciência da nossa existência e com isso os problemas que sempre existiram começaram a ser vistos e discutidos publicamente”, conta ela. Visibilidade é mesmo um problema da comunidade gay no Japão. Segundo um ativista brasileiro que prefere não ser identificado, a parada gay de Tóquio de 2006 recebeu uma cobertura praticamente nula da imprensa local. Distante da grandiosidade das paradas de São Paulo, Rio e de cidades da Europa e dos Estados Unidos, os eventos, que no Japão ocorrem em Tóquio, Osaka e Sapporo, têm relevância por dar personalidade a um movimento ainda fragmentado e com atuação limitada.
Foi, também a falta de visibilidade que levou Tomoya Ohata a organizar, na cidade de Hamamatsu, o grupo ANBA (de ANzen BAsho ou “lugar seguro”). Hamamatsu possui pouco mais de 800 mil habitantes e está longe de ter a efervecência gay de Tóquio ou Osaka. Na cidade industrial localizada no centro do Japão, o que prevalece é a lei do silêncio. Em cidades desse porte, a existência de locais gays é garantida. No entanto, trata-se de pequenos bares onde apenas homens podem entrar, na maior parte dos casos. Locais para lésbicas, travestis ou transgêneros são raros. Nesse sentido, grupos como o ANBA ganham uma importância ainda maior.

“Eu estudava na faculdade em Hokkaido [no extremo norte do Japão], todos os meus amigos sabiam que eu era gay”, lembra Ohata. “Quando eu retornei para a minha cidade natal, a única pessoa que sabia que eu era gay era a minha mãe. Eu não tinha amigos gays. Eu quero ter amigos. O círculo [ANBA] foi [criado] para conhecer amigos”, conta ele, que fundou o grupo há cerca de 5 anos. O ANBA promove encontros mensais onde a idéia principal é o conhecimento. Dentre as atividades, estão rodas de leituras em temas como “sair do armário”, relação com a família e aids.
Recentemente, o grupo convidou a deputada Otsuji para participar de uma roda de leitura. Aliás, é a segunda vez que ela participa de uma atividade do ANBA. A primeira foi um encontro mais formal, com direito a microfone e apresentação com power point. Foi um evento mais político, dentro da Universidade de Shizuoka, com a participação dos estudantes de Ciências Sociais. No segundo, Ohata queria a deputada na roda, junto com os outros participantes, compartilhando a experiência escrita no livro Coming Out — Jibunrashisa Wo Mitsukeru Tabi (algo como “Saindo do Armário - Viagem À Procura de Si Mesma”). Na roda, os homens eram maioria. Um deles fazendo cross-dressing. Alguns apenas ouviam, outros debatiam trechos do livro a partir de suas próprias vivências.
Assumir a homossexualidade é, realmente, o assunto da hora entre os gays no Japão. Além da questão política, dizer para a família e para os amigos que é gay representa a conquista de uma liberdade que muitos almejam. No entanto, em uma sociedade onde expor sentimentos é tabu, abrir para as pessoas sua orientação sexual é trafegar no limite entre o público e o privado. O jovem Yasuaki, 19, é um exemplo de que a questão da aceitação (individual e social) do gay é universal. “Na época do ginásio, eu deixei de ir a escola”, relembra ele, “ser gay, era algo muito sofrido e eu não sabia o que fazer para acabar com esse sofrimento”. Neste momento, Yasuaki encontrou um suporte na literatura, através da obra de Taiga Ishikawa, 29, que escreveu, em uma situação parecida com a de seu leitor, o livro “Boku No Kareshi Wa Doko Ni Iru?” (Onde Está O Meu Namorado?) e ganhou as páginas da imprensa.
“Depois de ler o livro”, conta Yasuaki, “decidi sair do armário. No livro, a pessoa vive uma vida normal apesar de ser gay. Isso me tocou muito”. Antes, porém, o rapaz criou um site que foi se tornando famoso junto a outros adolescentes gays. Ali, ele conta suas experiências, recebe e dá conselhos e faz novos amigos. Yasuaki fez seu kamingu auto cerca de um ano depois de iniciar o site. Na escola, teve uma surpresa. “Eu pensava que os amigos iam se distanciar, mas nada disso aconteceu”, recorda. No entanto, a reação da mãe foi a mais previsível possível. “Como eu não tenho pai, minha mãe ficou se culpando, achou que foi falha dela na minha educação.”, conta ele. “Tinha uma época em que ela reclamava de tudo, ficava brava sem motivo. Agora ela melhorou um pouco, mas não aceitou totalmente. É uma questão de tempo”. Yasuaki está terminando o Ensino Médio e quer ser conselheiro escolar (uma espécie de psicólogo). “Quero ajudar pessoas como eu”, conclui ele.
Sair do armário também foi essencial na carreira política da deputada Otsuji. Depois do comming out, ela ficou mais livre para oferecer seu suporte e apresentar propostas a favor da comunidade GLBTT (sigla para “gays, jésbicas, bissexuais, travestis e transgêneros”). Em Osaka, ela tem atuado nos campos mais distintos, da educação até a moradia, passando por um departamento especial que trabalha na prevenção de suicídios, solução comum na sociedade japonesa diante de situações-limite. Mas ela reconhece que ainda há muito para fazer. “No Japão, não existem leis para proibir a discriminação de GLBTTs”, lembra ela. “Isso precisa ser mudado”, completa. Tomoya Ohata lembra, também, do casamento entre pessoas do mesmo sexo. “Acho que a maior mobilização [dos grupos gays no Japão] seria essa”, diz ele, que arremata, sério, “talvez não seja para agora, talvez demore décadas. No Japão, isso agora é muito difícil”, completa, com uma certa tristeza.
Entrevista com a deputada Kanako Otsuji:

A senhora poderia contar como se deu o seu comming out?
Inicialmente, em 2003, eu fui eleita em Osaka para um mandato de 4 anos. Em 2005, na Parada do Orgulho Gay e Lésbico de Tóquio, eu saí do armário. Na mesma ocasião, eu lancei o livro “Coming Out — Jibunrashisa Wo Mitsukeru Tabi” (Saindo do Armário — Viagem À Procura de Si Mesma). No meio político do Japão, fui a primeira homossexual a sair do armário o que atraiu a atenção da população em geral.
Que mudanças sociais a senhora percebeu após a sua atitude?
A maior mudança que ocorreu foi o aumento da visibilidade dos GLBTT, pois as pessoas achavam que os GLBTT não eram algo próximo delas. As pessoas não percebem que há GLBTT vivendo em volta delas. As pessoas tomaram consciência da nossa existência e, com isso, os problemas que sempre existiram começaram a ser vistos e discutidos publicamente. Por exemplo: os problemas dos jovens homossexuais (auto-aceitação, suicídio, maus tratos); nas cidades, a questão da parceria homossexual também pôde ser discutida (coisas como aluguel, seguro, financiamento, herança). Os nossos problemas foram transmitidos para todos e com o aumento da visibilidade há a possibilidade da quebra do preconceito e dos estereótipos.
O que existe de legislação no Japão para proteger os direitos do segmento GLBTT?
No Japão não existem leis para proibir a discriminação contra os GLBTT. A lei não nos protege. No Ministério da Justiça está tramitando um projeto que fala em direitos humanos e propõe acabar com a discriminação contra as minorias sexuais. Mas ainda não é uma lei e não pode ser executado. Caso surja um problema com os GLBTT, não há nenhuma lei a favor. Isso precisa ser mudado.
Que propostas a senhora apresentou em seu mandato acerca dos direitos dos GLBTT?
Primeiro temos mostrado aos funcionários dos órgaos públicos de Osaka que existem as minorias sexuais na cidade. Os GLBTT devem ser incluídos na seção de Direitos Humanos. Atualmente, em uma parte dos condomínios públicos de Osaka, casais do mesmo sexo têm o direito de requerer apartamentos [Os condomínios públicos são moradias para pessoas de baixa-renda]. Na área da educação, há uma proposta para dar suporte aos alunos dentro da escola, para que eles não se sintam sozinhos ou fiquem desorientados em relação a sua orientação sexual. No departamento de prevenção a suicídios, há uma proposta para que alguém possa dar suporte especializado para as minorias sexuais. Há várias propostas em diversas áreas para que as minorias sexuais possam levar uma vida melhor. Houve mudanças em algumas áreas mas em outras nada mudou ainda.
Qual a agenda do movimento GLBTT no Japão?
Antes de mais nada, não há uma lei contra a discriminação e o preconceito e isso é um grande problema. Primeiro temos que criar uma lei que proíba o preconceito e a discriminação contra os GLBTT. Após isso ha vários problemas: entre os gays há o problema do HIV/aids e deve ser colocado um esforço nessa área [O Japão ainda está vivendo o momento de conscientização acerca da questão do HIV/aids e, como ocorreu em outros países, como o Brasil, o primeiro grupo a buscar os exames são os gays masculinos. Por isso, dentre os casos registrados da infecção, o grupo está em primeiro lugar o que criou a ilusão local da “peste gay”, que acabou gerando uma série de políticas errôneas e discriminatórias na Europa e nos Estados Unidos dos anos 1980 e no Brasil do início dos anos 1990].
No caso das lésbicas, há a questão econômica. O salário da mulher, em geral, é mais baixo que o do homem, gerando um problema: elas não conseguem morar sozinhas. E mesmo dentre os casais lésbicos, o rendimento também é baixo [no Japão, diferente do que ocorre no Brasil, a diferença salarial entre homens e mulheres é explícita, inclusive nos anúncios de emprego].
No caso dos transgêneros, o seguro de saúde não cobre o tratamento de transgenitalização que tem um custo altíssimo. Também a troca oficial de sexo exige muitos requisitos, o que dificulta bastante.
Há mais um problema que também é discutido no Brasil que é a questão da parceria entre as pessoas do mesmo sexo. Há uma discriminação nisso. Nós trabalhamos, pagamos impostos e não temos vários direitos que os demais cidadãos possuem. O pais não nos aceitam como parceiros gerando problemas de herança, dentre outros. No caso da lésbicas, estão surgindo os problemas em relação aos direitos de guarda dos filhos. A partir de agora devemos discutir a questão da parceria homossexual.
*Entrevista traduzida e transcrita por Fernando Okada.
Matéria originalmente publicada no site Mix Brasil










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1 PERMANENTLY TEMPORARY » Blog Archive » OTSUJI VAI CASAR // Apr 30, 2007 at 2:28 pm
[…] atrás, republiquei uma matéria que fiz com a deputada Otsuji Kanako (aqui uso o modo japonês de escrever com o sobrenome na […]
2 PRODUTOS NOTÁVEIS » Blog Archive » À MODA ANTIGA // Jun 10, 2007 at 10:55 am
[…] Veja entrevista exclusiva com a deputada em outro post. […]
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