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Fala, gente, como está esse começo de 2009? Aqui está doideira geral. Estou quase acabando a dissertação de mestrado e, finalmente, serei um homem livre. Bem, dia 7 de janeiro o Pátria Amada, Brasil ganha sua segunda exibição pública no evento Film Chess Night que rola no Ben’s Café em Tóquio. Não sei como é a cara do evento. Pareceu-me bem parecido com o Film Marmalade. Vê aí as info:
Film Chess Night
Short films consumed with alcohol.
Time: 8 -11pm, Wednesday, Jan. 7.
Place: Ben’s Cafe, Takadanobaba Station (1-29-21 Tel.03-3202-2445)
Cover: 500 yen (Or a short film).
Easy Walking: 1.) Go out the Waseda ticket gate and turn right. 2.)After Choco Cro, turn right again. 3.) After the chain link building,it’s on the right.
From Tozai Line exit 5, skip step 1.
Quem for aparecer dá um toque!
Olá, gente, akemashite omedetō gozaimasu. Kotoshi mo yoroshiku onegaitashimasu!
Todo ano eu fico curioso para saber qual será o kanji selecionado para representar o período que passou. 2008 foi barbada! 「変」foi o escolhido. (Se você não consegue visualizar o caractere, precisa configurar seu computador para ler “kana”, a escrita japonesa.) 「変」(lê-se “hen”) significa “mudança” e com ele se escreve palavras como “kaeru” 「変える」(mudar), “hen (na)”「変な」(estranho), “henka”「変化」(mudança), “henkaku” 「変革」(mudança, reforma), “hendō” 「変動」(flutuação), “tenpenchii” 「天変地異」(desastre natural) etc.
fonte: Nihon Kanji Nōryoku Kentei Kyōkai
2008 foi cheio de mudanças. No plano internacional, a eleição de Obama, o primeiro afro-descendente a chegar ao poder no Império, foi o fato mais comentado. No Japão, a crise econômica afetou em cheio a vida dos japoneses trazendo-os de volta à realidade. Os jovens vivem uma época em que o emprego de longo termo (ou para a vida toda) está desaparecendo da realidade japonesa. (Em breve publico um artigo sobre isso.) A troca do primeiro-ministro também gerou controvérsias e insegurança. A comunidade dekasssegui no Japão também sofreu um revés enorme por conta da crise e muita gente (inclusive pessoas amadas) já voltou ou está de mala e cuia pronta para o Brasil.
Já as frases mais populares de 2008 no país foram as seguintes:
「グ〜!」(lê-se “guuuu!”): Não me peçam para traduzir essa. Impossível. Vejam por vocês mesmos.
「アラフォー」(lê-se “arafō”): Depois de, há um tempo atrás, uma estrelinha do show business japonês ter declarado que não sabe o que acontece com a mulherada depois dos 30, a vingança veio a cavalo. As quarentonas dominaram 2008 no Japão. “Arafō” vem do inglês “around forty” (ou “quarenta e poucos”) e se refere às mulheres na também conhecida “idade da loba”. Foi o título de um dorama exibido pela TBS e estrelado pela belíssima Amami Yuki. Veja o site do dorama.
「上野の413球」(lê-se “Ueno no 413 kyū”): Quer dizer, as “413 bolas da Ueno” e se refere à estória da jogadora de softball Ueno Yukiko que pegou nada menos que 413 bolas na semifinal/final olímpica do esporte contra os Estados Unidos e a Austrália. A moça trouxe para o Japão uma medalha de ouro inédita para o softball.
「居酒屋タクシー」(lê-se “izakaya taxi”): Refere-se a um escândalo político que chamou atenção no Japão em 2008. Políticos membros do parlamento e do governo tinham a regalia de serem conduzidos em táxis que ofereciam bebidas e petiscos. Foi apurado que cerca de 1400 pessoas, ligadas a 17 autoridades de alta patente se “beneficiaram” do negócio. Izakaya é o nome que se dá aos típicos bares japoneses.
「名ばかり管理職 」(lê-se “mei bakari kanrishoku”): Peço ajuda aos universitários. Arriscaria dizer que significa algo como “organização só na teoria”. Refere-se às denúncias feitas por um gerente do Mc Donald’s de que horas extras e descanso semanal não estavam sendo pagos aos funcionários da empresa.
「埋蔵金」(lê-se “maizōkin”): Quem entende de economia japonesa podia ajudar. Mas, parece ter vindo de um relatório do ex-secretário geral do Jimintō, o partido governista japonês. Teria dito o moço que os valores contigenciados em contas especiais do governo japonês chegaria a exorbitantes quantias as quais ele qualificou como “tesouro escondido”.
「蟹工船」(lê-se “kanikōsen“): Quer dizer “catador de caranguejo” e é o título de um romance de Kobayashi Takiji, publicado pela primeira vez em 1929. A obra faz parte da chamada “literatura proletária” japonesa e mostra o cotidiano até então ignorado dos trabalhadores temporários que viviam da coleta do caranaguejo. Kani Kōsen foi relançado em 2008, ampliando o debate sobre os chamados “working poor” ou “trabalhadores pobres”, gente que, apesar de estar de algum modo no mercado de trabalho, não consegue atingir o padrão de classe média da sociedade japonesa. Veja a introdução do filme baseado no livro rodado em 1953. Em seguida, o que os produtores chamam de trailer do livro (?). Pensei que fosse a tal versão 2009 que parece que vai sair.
「ゲリラ豪雨」(lê-se “guerira gōu”): É algo como “chuva de guerrilha”, expressão resgatada dos anos 1970 pela mídia japonesa para se referir a episódios de chuva forte e repentina. Um deles chegou a matar trabalhadores que estavam fazendo uma obra nos subterrâneos de, creio, Tóquio.
「後期高齢者」(lê-se “kōki kōreisha“): Seria algo como “idosos terminais”? Bem, parece e é pesada a expressão usada para se referir aos maiores de 75 anos no novo sistema de benefícios japonês. Por conta da reação negativa, o termo foi mudado para “longevo”.
「あなたとは違うんです」(lê-se “anata to wa chigaun desu“): Ou “diferente de você”. Foi assim que o até então primeiro-ministro Fukuda Yasuo respondeu a um repórter que lhe perguntou se ele, anunciando sua saída do governo, era capaz de ver a situação do ponto de vista dos cidadãos. A resposta completa de Fukuda foi 「私は自分自身を客観的に見ることができるんです。あなたとは違うんです」ou “Do meu ponto de vista, eu vejo as coisas de forma objetiva. Diferente de você.”
Tecnologia é o assunto da vez quando se fala de indústria cinematográfica. Enquanto os barões discutem como podem extrair o máximo de lucro das novas possibilidades, existe gente fazendo, graças a elas, os filmes possíveis.
No tempo do Cinema Novo, dizia-se que fazer cinema era “uma idéia na cabeça e uma câmera na mão”. As idéias podiam vir fáceis, já que estamos falando de um momento de imensas transformações sociais, os anos 60. Mas, a câmera… Bem, a câmera já era algo limitado a poucos que podiam ter acesso a ela.
Chegamos, porém, num momento em que, tal qual uma geladeira ou um televisor, a câmera é um item presente (aqui cabe uma ressalva: ainda temos milhões de pessoas que não têm acesso a geladeiras, televisores e, claro, câmeras). O mesmo podemos falar de outros equipamentos, em especial os que possibilitam a edição de vídeos. Além disso, temos que convir, em países como o Japão ter acesso a esses bens não é impossível.
E não pense que estou falando de poder aquisitivo apenas. Falo de acesso. O Japão é um país produtor, logo, o preço dos bens é muito menor em comparação com o Brasil, um país consumidor. Por fim, só para fechar a cadeia, houve a popularização da internet como meio de distribuição de conteúdo. Com ferramentas, idéias e canais, mas sem a posse de recursos financeiros, eu e muitos outros realizadores fazemos filmes possíveis. E Pátria Amada, Brasil é um deles.
Com uma câmera mini-DV e um microfone, saí com a parceira Sabrina Hellmeister em busca de material para um filme possível. Era uma tarde linda em Tóquio. Era o dia 8 de setembro de 2007. Neste dia, realizava-se um evento muito especial para muitos brasileiros que vivem no Japão: o Brazilian Day (ou Dia do Brasil). Gente de todas as partes do arquipélago japonês viajam até a capital para participar da festa. Neste dia, decidimos pedir aos brasileiros que escrevessem uma carta para o Brasil. Enquanto as pessoas buscavam inspiração para escrever, nós tentávamos conversar com elas.
Segundo o governo japonês, vivem no Japão cerca de 317 mil brasileiros. São, em sua maioria descendentes de japoneses que têm o direito de entrar legalmente nas terras de seus antepassados com o visto que os habilita a trabalhar em qualquer atividade econômica (aqui vale outro adendo: a lei japonesa é extremamente restrita com a entrada de estrangeiros como trabalhadores não-qualificados). Porém, o que se vê é que grande parte destes migrantes descendentes de japoneses trabalham em fábricas como operários. Há, ainda, brasileiros de outras origens. Estes são casados com japoneses ou nipo-brasileiros ou, ainda, trabalhadores especializados, músicos, estudantes…
Neste ano de 2008, por conta do centenário da emigração Japonesa ao Brasil, falou-se muito dos migrantes brasileiros no Japão, em especial dos descendentes de japoneses. Pátria Amada, Brasil faz, de algum modo, o caminho inverso. São os migrantes que falam do e com o Brasil.
As cartas são mensagens que apontam o sentimento desses brasileiros expatriados com relação ao país. Fala-se de saudade, do desejo de retorno, dos anseios com a situação de caos social que o Brasil vive. Fala-se com a propriedade de ser um brasileiro que, mesmo vivendo em uma terra distante, não perde o sentido de pertencer. Fala-se, também, com a autoridade de quem, nestes últimos 20 anos, injetou bilhões de dólares na economia do país. O número que pode soar arrogante, mas funciona como resposta aos detratores que se incomodam com quaisquer crítica feita ao país pelos que optaram (ou foram obrigados) a viver fora dele. Fala-se como brasileiro por direito!
Como filme possível, Pátria Amada, Brasil mostra filiação ao cinema-direto com suas entrevistas feitas nos espaços públicos e focando na população que, em geral, só aparece na TV como “personagem” para corroborar as idéias do produtor de conteúdo. É a classe que educa usando a classe que é educada como objeto para corroborar suas teorias.
Como filme possível, Pátria Amada, Brasil foi feito quase sem recursos financeiros. Digo quase porque tudo envolve dinheiro: a fita, os blocos de anotação, o transporte, a eletricidade… Qualquer filme é um negócio. O filme possível é um negócio maior para os produtores de insumos. Mas, o filme possível é um ente livre porque ele não responde aos patrocinadores, às exigências de bilheteria…
Como filme possível, Pátria Amada, Brasil vai ser lançado sem pompa, mas com circunstância. Ele chega às telas pela primeira vez na última edição de 2008 do The Rabadas Cinema Clube, um evento que mantêm o curta-metragem brasileiro em circulação no Japão. Mas, ele chega simultaneamente na internet, nos youtubes, vimeos, myspaces…
Como filme possível, Pátria Amada, Brasil não escolhe tela. E mais, convida a audiência a enviar suas mensagens para o Brasil através dos sistemas de vídeo-resposta do youtube. Isso porque um filme possível não pode se furtar de estabelecer um diálogo de igual para igual com sua audiência. Um filme possível tem que ser capaz de inspirar outros filmes possíveis.
O Produtos Notáveis vem com uma notabilíssima convidada, a diretora, cenógrafa e etc Daniela Thomas que me deu entrevista para uma matéria sobre o filme Linha de Passe que foi exibido na programação do festival Tokyo FilmEx. No bate-papo, Daniela discute o processo de criação do filme, fala da parceria com Walter Salles, da (falta de) reação do público japonêse de muito mais. Confere nesse podcast especial.